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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Primeiro e segundo dias

No primeiro dia as coisas não se passaram muito bem. Depois de deixar o pequeno apartamento de 9m2 em direção à França inteira e bela, nos perdemos antes dos 10 primeiros quilômetros. As pernas já pediam férias, e não tínhamos vencido nem 5% do percurso. Mas nossa determinação estava inabalável.
Nossos veículos merecem um destaque especial. Cecília pilota Rippley, forte, elegante e imortal.
De Orage
Eu viajei na N1, uma joia raríssima do tempo da República. Desenho arrojado, versatilidade, e uma herança clara da Coroa de Naboo: a cor. É bela, mas não é o veículo mais apropriado para uma viagem desse tamanho. Ela foi desenhada para pequenas missões de caça, em torno de Naboo, que exigem alto poder de fogo e agilidade. Entretanto, minha unidade é uma das poucas que tinha sido adaptada para escoltar o cruzador real Nubian em missões diplomáticas.
De Orage
Não sabemos se foi tal adaptação duvidosa, ou simplesmente sua idade, mas ela se mostrou delicada num momento crítico.
Tínhamos acabado de reencontrar o caminho quando os pedais da N1 travaram. Eu não tinha nem idéia do que estava acontecendo. Estávamos na entrada de Gerzat, cidade pequena onde não havia mecânico de bicicleta. Encontramos um mecânico de carro, que não pôde oferecer mais do que dizer que em Gerzat, de fato, não há mecânico de bicicleta. Ouvimos isso 6 vezes, de 6 pessoas diferentes. Perguntamos várias vezes; era difícil acreditar.
Quando eu mesmo (Bernardo) tentei resolver o problema, sofri. Não com o desmontar enfadonho e sujo de graxa, mas com o enígma. Não havia mais parafuso ou porca a ser retirado, e eu não entendia o que estava errado. Quando ela parecia ter voltado ao estado normal, o primeiro teste a travava de novo. Até que eu, por acaso, rodei a peça certa, com a mão mesmo, para o lado que parecia errado mesmo, e o pedal se soltou. Pneus na estrada. Percorremos mais um pouco, sacrificada uma das 5 refeições previstas, e chegamos a um "posto piquenique". Algo muito estranho. No meio do nada, na beira da estrada, uma mesa com bancos, tudo de madeira, com entrada para carro.
De Orage

De Orage
Paramos exatamente na quilometragem que tínhamos previsto para a pausa. As costas doíam. Estávamos muito felizes. O lugar era muito bonito.
Montamos o acampamento numa fazenda, entre duas plantações separadas por uma valeta, por onde corria água visivelmente não potável.
Durante a noite, Cecília acordou com frio. Acionamos os dois pacotes de acetato de sódio, que produzem calor, e os colocamos dentro dos sacos de dormir, para aquecer os pés. Algumas horas depois, eu acordei com frio nas costas e a impressão de que o pacote de acetato de sódio não estava funcionando. Teoricamente, ele deveria funcionar por 6 horas. Depois de refletir um pouco, percebi que havia uma corrente de ar que entrava por baixo da lona externa. Eu deveria ter fincado as estacas até que a lona tocasse o chão; era a primeira vez que eu montava aquela barraca. Não ousei sair para corrigir nada. Logo seria dia. Virei o corpo para que o zíper do saco de dormir ficasse para cima, e a corrente de ar frio deixou de tocar minhas costas.
Na manhã do dia seguinte, levei tempo demais para desmontar a barraca; perdemos os primeiro 40 minutos de luz de dia, antes de começar a pedalar. O frio da manhã era úmido e o nosso humor, frágil.
A manhã não foi muito produtiva. Viajamos abaixo da velocidade média pretendida. O stresse nos impedia de observar as belas paisagens.
De Orage

Depois de Randan, atravessamos uma floresta precedida por placas de advertência que anunciavam a possibilidade de travessia de cervos. Ficamos atentos ao bosque, mas somente Cecília pôde ver um dos animais pulando até a metade da estrada e em seguida voltando.
Chegamos à Vichy, onde um senhor muito simpático conversou conosco, nos instruiu sobre como deixar o labirinto da cidade o mais rápido e prático possível, e nos recomendou voltar no verão ou na primavera, quando as árvores estão floridas. De fato, o dia não estava muito bonito.
De Orage

De Orage
A conversa com o simpático senhor e a sensação de estar se mexendo mais nos revigorou, e continuamos pedalando, mas não fomos muito longe. No fim do 2° dia de viagem, chegamos à Lapalisse. Isso significava nada mais do que 76 quilômetros percorridos. Segundo o projeto inicial, já deveríamos estar na metade do caminho, isto é, 200 quilômetros.
Eu entrei numa padaria para pedir água enquanto Cecília ficou com as bicicletas e as mochilas, na calçada diante do majestoso e quadrado Castelo de Lapalisse.
De Orage
A placa agourenta diz "você não tem a prioridade".
Pedalamos mais um pouco para sair da cidade, tentando não pensar nos números modestos que apontavam, talvez, para uma longa viagem de 15 dias, e procuramos um lugar para montar acampamento, antes que fosse noite.
Encontramos uma pasto enorme com pequenas árvores no meio e uma casinha ao lado. Tocamos o sino da casa, e fomos atendidos por um homem de expressão curiosa. Contamos um pedaço da nossa história e pedimos sua permissão para montar a barraca em algum lugar do seu pasto que não lhe fosse inconveniente.
- No fim desse muro, tem um portão com uma corrente. Desenrole a corrente e podem entrar.
Agradecemos, entramos, atravessamos o pasto até as árvores e nos instalamos. A noite foi tranqüila.

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Leia aqui o relato do terceiro e quarto dias.
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