Literatura e Internet

Literatura com L maiúsculo e Internet com I maiúsculo. Os dois conceitos pedem reflexão e respeito apenas pelo status das palavras que os representam. O que é literatura e o que não é literatura é assunto para um número impressionante de teses e dissertações de mestrado, desde muito tempo. E o que é Internet, bem, entre um artigo técnico no Wikipédia ou uma nuvenzinha nesse vídeo sobre o Google Chrome OS, ainda tem gente perdida que pensa que é só uma moda...

Eu não estou escrevendo para refazer perguntas que estão sendo feitas há anos. Eu não estou escrevendo para definir conceitos difíceis. Na verdade, eu estou escrevendo para pessoas que já tem uma idéia definida desses dois elementos do meu título. Mesmo que vagamente definida. Pessoas que, em posse dessas duas idéias, Internet e Literatura, poderão fazer um esforço para colocar os preconceitos de lado, a Literatura na Internet, e o olhar no futuro.

Como eu escrevo em um blog, muita gente vai pensar, nesse ponto da leitura, que eu estou simplesmente defendendo meu blog e vendendo meu peixe. Só que depois de tantos vídeos e fotos de viagens, depois de tanta diversão e postagens bobas, esse blog deixou para trás, deliberadamente, eu devo acrescentar, seu caráter sério, chato e literário. Em resumo, a gente faz por prazer, e não pela arte. Particularmente nessa postagem, o que me dá prazer é a perspectiva. O futuro. É claro que eu estou empolgado com meu Android Phone, com essa espécie de iTábua da Apple, com essa tela flexível, e tudo mais, mas o que me chama a atenção nessa bola de neve de tecnologia que não pára é o lugar da arte nisso tudo. Em particular, da Literatura, já que ela é objeto de meus estudos há anos. Tem gente dizendo que ela vai morrer, que ela está perdendo espaço. Que a tecnologia está tomando o espaço dos bons hábitos. Essa proposição me parece absurda, primeiro porque as pessoas continuam lendo, e segundo porque na idade média não havia nem Internet, nem televisão, nem telefone, e era bem mais difícil encontrar uma pessoa capaz de ler um simples bilhete. Acreditar que a Internet prejudica a Literatura equivale a acreditar que a tecnologia prejudica a educação.

Houve uma época em que escrever não dava dinheiro nenhum. Copiar, sim. Mas não escrever. Traduzir, talvez, mas escrever... não. Gastar tempo e dinheiro na produção de um texto de ficção? Absurdo! Qual é o valor disso para uma sociedade? É preciso ser médico, comerciante, agricultor, copista! mas não escritor. Esse é o pensamento provável numa sociedade, digamos, no tempo de Cícero, o grande autor do século I (que foi advogado e político). Pois é, Literatura era inútil, até que descobriram que ela é útil e, esperemos, ela vai continuar assim por mais alguns séculos.

A Internet é uma grande ameaça, eu não nego. Mas o que ela ameaça não é a Literatura nem a música, mas os livros (de papel) e os CDs (de plástico). Os verdadeiros escritores escrevem. Isso é um fato. Se alguém estiver interessado no que eles escrevem, ótimo, eles serão pagos para escrever. Se não, pouco importa, eles vão continuar escrevendo. Essa não é uma característica dos escritores modernos. Sempre foi assim. O homem deixa sua marca como ele pode.

Há muito tempo, escrevia-se em pergaminhos de couro. O negócio era tão caro, que uma prática comum era pintar um texto obsoleto de branco e escrever outro por cima. Depois, os chineses inventaram o papel, que é mais frágil, mas mais barato também. Quando o livro como o conhecemos hoje foi inventado, houve resistência da parte de copistas, claro, mas provavelmente também de leitores. Imagine só o doutor que diz: "O que? Isso não é um livro! Parece mais um tijolo de papel!" Hoje, estamos vivendo o mesmo tipo de resistência com relação ao livro virtual, o arquivo "ponto pdf", que permite carregar uma biblioteca inteira no seu telefone celular e não exige o corte de árvores para sua produção. Preconceitos. Nada de novo debaixo do Sol.

O passado contesta o presente e aponta para um futuro certo. Hoje, qualquer um pode se publicar, independentemente da aprovação de quem quer que seja. No futuro, pessoas que escrevem espontaneamente excelente literatura serão julgadas pelo público, e apenas pelo público, se sua obra vale o esforço de ser lida ou não. Um blog com 20 000 leitores fiéis merece ser estudado. Um blog como esse que você está lendo... bem... nem tanto.

Literatura já foi grátis por ingratidão e ignorância. Agora, parece que ela será grátis graças à Internet. E isso é horrível para os pobres escritores, certo? Não! Nada disso! A rede Globo também é de graça. Ela vive de publicidade, porque todo mundo vê. Os escritores da web podem fazer o mesmo; viver de publicidade porque todo mundo lê. Isso se eles forem eleitos pelos leitores. Quando não, quando um escritor "menor" for esquecido pelos leitores, ele será obrigado a trabalhar com outra coisa para garantir sua subsistência. Triste, não? Mas peraí, a coisa já era assim antes da Internet! Machado de Assis teve um empreguinho de nada numa gráfica antes de começar a viver de sua arte, sem o qual nem um de nós saberia seu nome hoje.

Outro exemplo eloquente da rentabilidade da publicidade é a Google. Ela responde suas perguntas na net, oferece e-mail inteligente, agenda interativa e compartilhável, tudo isso de graça. E ela é googlenária!

Como é que isso funciona? Bem, se se você tiver uma página na internet com uma meia dúzia de leitores, nada acontece certo? Você terá talvez a tendência de achar que Internet é só uma moda. Mas digamos que seu site é visto por 200 000 000 pessoas! Algo como a população do Brasil.

- Bem, legal, eu tenho um país inteiro que me observa. E daí?
- Imagine agora que você mostra um anúncio de outra pessoa para todos esses leitores.
- Certo, aí o outro cara fica tão conhecido quando eu. Legal...
- Mas não é só isso; imagine agora que 10 % dos seus leitores clicam no anúncio daquele outro cara!
- Legal, aí o outro cara fica rico, enquanto eu sou só famoso...
- Não! Aí você ganha alguns centavos por clique. Centavos que foram pagos à Google pelos anunciantes, e a você pela Google! Agora faça as contas. 10 % de 200 000 000 é 20 000 000.
- Nossa! É só um zero a menos?
- É. É só um zero a menos. Digamos que a média de pagamento por clique é de 10 centavos (o que não seria absurdo). Você ganharia 2 milhões de reais e seria muito mais rico que a maioria dos seus anunciantes.

É claro que essa matemática é hipotética e só funciona se você tiver uma idéia realmente muito boa para seu site, ou ótima literatura. Mas o princípio é esse. Sabe esses pequenos anúncios aí ao lado, à direita? Dê uma olhada. Se você achar algo interessante, clique para ver no que dá.

Não custa nada.
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