.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Pra encerrar a série de redações nada parciais de 2005

Tema: « Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com um país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... »


A Peste


Se planejar fosse o bastante, a felicidade seria uma doença epidêmica, incontrolável e, já há muito tempo, moléstia incurável e fatal de cada cidadão da Terra. Padeceríamos todos da idéia absurda de que não há problema algum no mundo.

Primeiro, o infectado faria planos mirabolantes para solver cada dor de cabeça, cada calo, cada beijo não dado, sem fazer nada. Iria pensar no analgésico, em tirar o sapato apertado, em agarrar a moça, mas não moveria um dedo sequer. Ficaria a supor como seria bom ver-se livre dos males. E a conjetura, certa hora, ser-lhe-ia suficiente. Nesse segundo estágio da doença, ele passa a deleitar-se com suas soluções, umas óbvias, como tirar o sapato, outras hipotéticas, como agarrar a moça. Apesar de continuar com o calo doendo e sem o beijo, ele se sente feliz. Suas soluções lhe proporcionam toda a satisfação de que ele precisa, embora tenham permanecido em sua mente, onde nasceram.

No paroxismo da patologia, que anuncia o estágio final, todos veriam o estado decadente e lastimável de alguém que está tão ocupado em engendrar pensamentos que abandonou a parte física de sua vida. Alguém que, ao se deparar com a morte certa e iminente, imagina inventar certo elixir da vida, como o qual solucionaria a última das tristezas a ser tragada por algo que se diz vivo.

Assim, depois de solucionar, talvez, a fome no mundo, em um certo momento altruísta de sua existência, morreria sorrindo e quieto, o homem criativo e de braços cruzados. Morreria de felicidade.


Pedro Bernardo

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ainda na aula de redação...

Tema: « Navegar é preciso; viver não é preciso. » (Fernando Pessoa)


Universos Paralelos e Hipotéticos Derivados do Arrependimento


Encaramos decisões, desde as mais prosaicas até os mais truncados dilemas. Essa rotina pode significar a existência de milhares de realidades paralelas à nossa, mesmo que imaginárias, onde as coisas são diferentes devido a decisões diferentes.

Quanto maior o arrependimento por certa escolha, mais bem definido fica o universo que se cria ao se supor como teria sido se o caminho tomado tivesse sido outro. Não sabemos o que é certo. E, no meio da nossa ignorância, somos forçados pelo destino a decidir. Mesmo quando acertamos, ficamos a pensar se, realmente, acertamos. Não há como ver a realidade paralela derivada daquela escolha. Como saber, então? Contentamo-nos em supor que seria maior ainda a tristeza.

Com o passar dos anos, os erros são esquecios. Por mais amargo que seja o gosto de uma escolha errada, ele passa. Esquecer é, portanto, uma dádiva imensurável. Sem ela, um adulto seria incapaz de carregar o peso do próprio arrependimento. Seria romantismo acreditar que as dores morais serão levadas ao túmulo. Talvez as da velhice. É preciso soltar a parte errada que não se pode consertar. Só assim será possível se concentrar na parte não perdida, na parte que ainda tem jeito.

Promover mudança é algo muito mais difícil do que se imagina. É necessário poupar esforços, como os que são gastos no engenho de utopias. Sonhar é preciso, mas atrapalha as horas em que estamos acordados.


Pedro Bernardo 2005

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Arrependimento

A vida é marcada, do começo ao fim, com grandes surpresas. Quando começamos a achar que aprendemos a viver, somos golpeados com certa angústia inesperada, ou com certo arrependimento por coisa que fizemos ou deixamos de fazer.

Qual seria a causa do arrependimento maior: não ter ou ter feito? O cético questionará – feito o quê? Não importa; há uma regra universal para a questão. Tudo isso gira em torno do livre arbítrio humano. O poder da escolha foi dado a certa raça imatura, que não sabe o que fazer dele. Ou o que não fazer. Se acreditamos que é errando que se aprende o que é errado e que a vida deve ser vivida através do critério « tentativa e erro », então, nada no mundo será mais doloroso do que não ter feito. Por outro lado, se acharmos que o metabolismo de uma vida é menos conturbado se, na esfera moral, tivermos menos o que digerir, então é melhor ficar quieto. O mais estático possível, para evitar erros. Mesmo se tratando de erros desejados e deliciosos, como um beijo aventureiro destinado a destruir a felicidade alheia. Entretanto, não se pode esquecer que há amigos que consolam e inimigos que atacam depois da decisão. Assim como antes dela. Os deleites compensam os desafios. Se mover é arriscar sem certeza. Mas ficar parado é ter certeza de que tudo que está ruim vai continuar asim. E o que está bom parece que vai acabando. Para quem não se move, as alegrias vão se esvaindo e as tristezas vão se condensando no fundo da alma. É preciso agitar a essência da vida, para poder ver as lamúrias e tratá-las. Tentar esquecê-las, nos momentos em qe achamos que conseguimos, não passa de um paliativo.

A dúvida jaz, exatamente, na parte mais frágil de uma vida. Ela, a incerteza, pode ser a ruína de um patrimônio emocional que levou meses para ser construído ou de um pequeno presente proibido, que carrega consigo um efêmero e vasto deleite, muito maior do que merecido.


2005, aula de redação. O professor dá o tema: « Ainda não estamos habituados com o mundo. Nascer é muito comprido. » Frase de Murilo Mendes. O texto que acabaram de ler é a resposta de Bernardo. Não sei se o professor entendeu todas as nuances. Eu entendi mais do que queria na época. Bom, ainda bem que imobilidade não combina em nada com a personalidade do meu marido.

Brincadeira?

Após reler alguns dos nossos textos à procura de algo pra publicar sábado, reencontrei esse conto que tanto marcou nossa história. O autor é Tchékhov, escritor russo do século XIX. E quem me apresentou essas linhas foi Pedro. Na época estávamos vivendo uma amizade densa, que trazia consigo a semente da paixão na qual mergulharíamos poucos meses depois. Pedro já tinha entendido a situação antes de mim, o interesse nasceu primeiro nele, é verdade. Certa noite, no cursinho, ele me apresenta o papel, escrito a mão. Leio. Não sei se entendo. Através esse conto, Pedro susurrou no meu ouvido, como o narrador fez com Nádia. E como a garota, eu não sabia se vinha do vento ou do amigo a tal voz. A voz de Pedro não me dizia "eu te amo" na época. Ele sempre foi prudente com essa frase; aprendeu com o pai, Jether. Era algo como "posso te amar". Quando eu leio a reação de Nádia, eu me vejo naqueles dias singulares de cursinho, de cartas, filosofia, chocolate e enigmas. E como a moça, aceitei o convite pra subir a montanha, mesmo com medo, na intenção de dissolver a dúvida. O fim da história vocês conhecem. E como vocês podem ver, no nosso caso, não era uma simples brincadeira.

Obrigada, Tchékhov!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Mal e o Bem

Eu sabia que Yahoo era do mal!


:P

Brincadeira

Um claro dia de inverno... O frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante na qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.

- Deslizemos até embaixo, Nadêjda Petrovna! - imploro eu. - Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!

Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se lhe afigura como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego. Só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó - que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!

- Eu lhe suplico! - digo eu. – Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!

Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com perigo da própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.

O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso, até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!

- Eu te amo, Nádia! - digo eu a meia voz.

O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar... Eu a ajudo a levantar-se.

- Nunca mais farei isto - diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. - Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!

Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.

Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria...

- Sabe duma coisa? – diz ela, sem olhar para mim.

- O quê? – pergunto eu.

- Vamos mais uma vez... deslizar pelo morro.

Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto e da zoeira, eu digo a meia voz:

- Eu te amo, Nádenka!

Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito:

"Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?"

Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.

- Não preferes ir para casa? – pergunto eu.

- Mas eu... eu gosto destas... descidas – diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?

Ela "gosta" destas descidas, e no entanto, sentando-se no trenó, ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.

Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:

- Eu te amo, Nádia!

E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando... Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer:

"Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!"

No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: "Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N." E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:

- Eu te amo, Nádia!

Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade eu voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento... Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!

Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vejo como Nádenka chega até o sopé, como me procura com os olhos... E depois, timidamente, ela sobe os degraus... Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento... "zzzzzz..." zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei... Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender...

Mas eis que chega o mês de março, primaveril... O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo - por muito tempo, quiçá para sempre.

Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo, ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento... O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado... Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima... E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:

- Eu te amo, Nádia!

Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.

E eu vou arrumar as malas...

Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis - isto não importa - com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras "eu te amo, Nádenka", não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação da sua vida...

Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, porque brincava...


Tchékhov

Falando em Literatura

É bem verdade que o nosso blog anda meio parado. A vida na França não é mais novidade, a faculdade nos ocupa bastante e a vida social na igreja preenche horas e horas de lazer. O que não é nada ruim. Pena é ver esse blog envelhecer. Flores precisam ser regadas constantemente e livros não lidos acumulam poeira. É preciso dar material novo em consideração aos nossos leitores fiéis e às mães no Brasil ávidas por notícias. Ainda mais agora que minha querida sogra está com internet em casa. Eu não quero condená-la a ler e reler história antiga e conhecida.
Por isso, resolvemos publicar antigos textos nossos, desconhecidos. Vocês encontrararão contos de ficção, crônicas, poesia, trechos de cartas que trocamos durante nosso namoro, algo que lemos e gostamos, mesmo análise de textos pra faculdade. E com frequência! Esperamos que gostem.

Boa leitura.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Literatura e Internet

Literatura com L maiúsculo e Internet com I maiúsculo. Os dois conceitos pedem reflexão e respeito apenas pelo status das palavras que os representam. O que é literatura e o que não é literatura é assunto para um número impressionante de teses e dissertações de mestrado, desde muito tempo. E o que é Internet, bem, entre um artigo técnico no Wikipédia ou uma nuvenzinha nesse vídeo sobre o Google Chrome OS, ainda tem gente perdida que pensa que é só uma moda...

Eu não estou escrevendo para refazer perguntas que estão sendo feitas há anos. Eu não estou escrevendo para definir conceitos difíceis. Na verdade, eu estou escrevendo para pessoas que já tem uma idéia definida desses dois elementos do meu título. Mesmo que vagamente definida. Pessoas que, em posse dessas duas idéias, Internet e Literatura, poderão fazer um esforço para colocar os preconceitos de lado, a Literatura na Internet, e o olhar no futuro.

Como eu escrevo em um blog, muita gente vai pensar, nesse ponto da leitura, que eu estou simplesmente defendendo meu blog e vendendo meu peixe. Só que depois de tantos vídeos e fotos de viagens, depois de tanta diversão e postagens bobas, esse blog deixou para trás, deliberadamente, eu devo acrescentar, seu caráter sério, chato e literário. Em resumo, a gente faz por prazer, e não pela arte. Particularmente nessa postagem, o que me dá prazer é a perspectiva. O futuro. É claro que eu estou empolgado com meu Android Phone, com essa espécie de iTábua da Apple, com essa tela flexível, e tudo mais, mas o que me chama a atenção nessa bola de neve de tecnologia que não pára é o lugar da arte nisso tudo. Em particular, da Literatura, já que ela é objeto de meus estudos há anos. Tem gente dizendo que ela vai morrer, que ela está perdendo espaço. Que a tecnologia está tomando o espaço dos bons hábitos. Essa proposição me parece absurda, primeiro porque as pessoas continuam lendo, e segundo porque na idade média não havia nem Internet, nem televisão, nem telefone, e era bem mais difícil encontrar uma pessoa capaz de ler um simples bilhete. Acreditar que a Internet prejudica a Literatura equivale a acreditar que a tecnologia prejudica a educação.

Houve uma época em que escrever não dava dinheiro nenhum. Copiar, sim. Mas não escrever. Traduzir, talvez, mas escrever... não. Gastar tempo e dinheiro na produção de um texto de ficção? Absurdo! Qual é o valor disso para uma sociedade? É preciso ser médico, comerciante, agricultor, copista! mas não escritor. Esse é o pensamento provável numa sociedade, digamos, no tempo de Cícero, o grande autor do século I (que foi advogado e político). Pois é, Literatura era inútil, até que descobriram que ela é útil e, esperemos, ela vai continuar assim por mais alguns séculos.

A Internet é uma grande ameaça, eu não nego. Mas o que ela ameaça não é a Literatura nem a música, mas os livros (de papel) e os CDs (de plástico). Os verdadeiros escritores escrevem. Isso é um fato. Se alguém estiver interessado no que eles escrevem, ótimo, eles serão pagos para escrever. Se não, pouco importa, eles vão continuar escrevendo. Essa não é uma característica dos escritores modernos. Sempre foi assim. O homem deixa sua marca como ele pode.

Há muito tempo, escrevia-se em pergaminhos de couro. O negócio era tão caro, que uma prática comum era pintar um texto obsoleto de branco e escrever outro por cima. Depois, os chineses inventaram o papel, que é mais frágil, mas mais barato também. Quando o livro como o conhecemos hoje foi inventado, houve resistência da parte de copistas, claro, mas provavelmente também de leitores. Imagine só o doutor que diz: "O que? Isso não é um livro! Parece mais um tijolo de papel!" Hoje, estamos vivendo o mesmo tipo de resistência com relação ao livro virtual, o arquivo "ponto pdf", que permite carregar uma biblioteca inteira no seu telefone celular e não exige o corte de árvores para sua produção. Preconceitos. Nada de novo debaixo do Sol.

O passado contesta o presente e aponta para um futuro certo. Hoje, qualquer um pode se publicar, independentemente da aprovação de quem quer que seja. No futuro, pessoas que escrevem espontaneamente excelente literatura serão julgadas pelo público, e apenas pelo público, se sua obra vale o esforço de ser lida ou não. Um blog com 20 000 leitores fiéis merece ser estudado. Um blog como esse que você está lendo... bem... nem tanto.

Literatura já foi grátis por ingratidão e ignorância. Agora, parece que ela será grátis graças à Internet. E isso é horrível para os pobres escritores, certo? Não! Nada disso! A rede Globo também é de graça. Ela vive de publicidade, porque todo mundo vê. Os escritores da web podem fazer o mesmo; viver de publicidade porque todo mundo lê. Isso se eles forem eleitos pelos leitores. Quando não, quando um escritor "menor" for esquecido pelos leitores, ele será obrigado a trabalhar com outra coisa para garantir sua subsistência. Triste, não? Mas peraí, a coisa já era assim antes da Internet! Machado de Assis teve um empreguinho de nada numa gráfica antes de começar a viver de sua arte, sem o qual nem um de nós saberia seu nome hoje.

Outro exemplo eloquente da rentabilidade da publicidade é a Google. Ela responde suas perguntas na net, oferece e-mail inteligente, agenda interativa e compartilhável, tudo isso de graça. E ela é googlenária!

Como é que isso funciona? Bem, se se você tiver uma página na internet com uma meia dúzia de leitores, nada acontece certo? Você terá talvez a tendência de achar que Internet é só uma moda. Mas digamos que seu site é visto por 200 000 000 pessoas! Algo como a população do Brasil.

- Bem, legal, eu tenho um país inteiro que me observa. E daí?
- Imagine agora que você mostra um anúncio de outra pessoa para todos esses leitores.
- Certo, aí o outro cara fica tão conhecido quando eu. Legal...
- Mas não é só isso; imagine agora que 10 % dos seus leitores clicam no anúncio daquele outro cara!
- Legal, aí o outro cara fica rico, enquanto eu sou só famoso...
- Não! Aí você ganha alguns centavos por clique. Centavos que foram pagos à Google pelos anunciantes, e a você pela Google! Agora faça as contas. 10 % de 200 000 000 é 20 000 000.
- Nossa! É só um zero a menos?
- É. É só um zero a menos. Digamos que a média de pagamento por clique é de 10 centavos (o que não seria absurdo). Você ganharia 2 milhões de reais e seria muito mais rico que a maioria dos seus anunciantes.

É claro que essa matemática é hipotética e só funciona se você tiver uma idéia realmente muito boa para seu site, ou ótima literatura. Mas o princípio é esse. Sabe esses pequenos anúncios aí ao lado, à direita? Dê uma olhada. Se você achar algo interessante, clique para ver no que dá.

Não custa nada.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...