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segunda-feira, 16 de maio de 2011

Polônia - primeiro contato




Varsovie, sábado 14 de maio.
Saí de casa às pressas às 7h20. Como de costume, deixei muita coisa pra fazer em cima da hora. Tive que lavar roupa, imprimir uns documentos, preencher outros. Bernardo me acompanhou até a parada do tram. A despedida foi difícil. Cheguei ao ponto de encontro com minha colega de faculdade e o motorista do "covoiturage" bem na hora, 8 da noite. Seguimos para quatro horas de viagem em direção de Paris com um homem de 34 anos, casado, pai de dois filhos. Viajamos num furgão, pois o rapaz trabalha pra uma empresa de entrega de encomenda; roda a noite inteira e com pressa, mas com precisão. O covoiturage é uma maneira pra ele de fazer uma grana extra e ter companhia. Pequena precisão, talvez desnecessária: ele não tem autorização do patrão pra fazê-lo. Imaginem a grana extra que ele faz em um mês. Eu fiz as contas; uns 800€! Isso sem gastar com nada, pois a gasolina e os pedágios são pagos pela empresa pra qual ele trabalha, logicamente. Aparentemente, os brasileiros não são os únicos a dar um "jeitinho".
Chegamos em Paris um pouco mais da meia noite, no terminal 1 do aeroporto Charles de Gaulle, que estava vazio e em obras. Senti-me um tanto insegura. Nos instalamos num banco um tanto desconfortável e lanchamos. Comi um delicioso saduíche feito pelo marido. Alguns minutos depois, um senhor simpático com um forte sotaque, que suponho indiano, veio nos indicar que havia uns sofás confortáveis mais longe. Agradecemos surpresas pelo cuidado do homem e nos dirigimos pra onde ele nos havia indicado. Descobri que no aeroporto temos wifi por 15 minutos e fui gastá-los cada segundo com Bernardo. Depois me instalei, com a mochila bem protegida entre as pernas, e dormi profundamente. Mas pouco. às 4h30 da manhã, minha colega e eu seríamos acordadas pelo mesmo homem dizendo que estava na hora de fazer o check-in. Ele sabia o nosso vôo porque havia perguntado antes de apagarmos no sofá. Sim, podem ficar de boca aberta com o cuidado dele. E era gratuito e sincero.

A garota com quem estou viajando merece ser apresentada. Não somos próximas e em um ano de estudos não encontramos nada que nos aproximasse antes dessa viagem. Ela tem 21 anos com espírito de 15. Não faz nem 24 horas que estamos juntas e eu já estou sem paciência. Ela é uma figura de vulto pequeno, redondo e amarelo. Seu temperamento também parece uma caricatura. Em alguns minutos, pude perceber que ela reúne todos os clichês negativos dos franceses; os positivos, tenho duas semanas pra descobrir. Ela reclama de tudo e todos o tempo todo. Tudo é ruim, feio, desconfortável. Ela é cheia de preconceito cultural; antes mesmo de tocar em solo polonês já pode discursar sobre o que falta no país. Disse que comeu no McDonalds antes da viagem porque na Polônia muito provavelmente não tem; do mesmo jeito que não se tem telefone celular de qualidade. Pra quem não sabe, os franceses também se orgulham de serem conhecidos por serem pirangueiros. A moça, não podia ser diferente; percebi que ela espera eu sair pra comer algo. Como boa francesa, ela aprecia a culinária. Mas por ser caricatura, come o tempo todo e trouxe uma mala gorda, com salada, bolo, chocolate, yogurte, sanduíche e até linguiça. O argumento é "sabe-se lá o que eles vão nos dar pra comer lá!". E pra coroar, ela não sabe muito da geografia além das fronteiras do pentágono. Em uma conversa ela disse, com os olhinhos azuis brilhando de ignorância: "O Brasil é banhado pelo Pacífico, né?" Humm... o que responder? Sorrio amarelo, um mixto de piedade e desprezo. E informo pedagogicamente a situação geográfica do Brasil. Vou acabar fazendo como ela, que risca os dias na agenda quando eles passam.

Desculpem falar mal assim dela, mas precisava desabafar... 

Agora é quase meio dia, estamos em Varsóvia esperando o vôo pra Wroclaw. O vôo se passou bem, tranquilo e eu nem enjoei, dormi como um bebê. Faz umas duas horas que ouço poloneses conversando. E como eles falam! São pessoas que não se conhecem, mas a proximidade de um banco de aeroporto é o bastante pra fazê-los conversarem e se conhecerem. Já vi umas cinco pessoas se abrindo num sorriso a uma discursão com um vizinho de banco. Uma senhora me dirigiu a palavra. Entre as inúmeras consoantes, pude distinguir o nome da cidade pra onde vou. Fiz cara de "hã?!" e nem ousei a primeira frase em polonês. Soltei um "Sorry, I don't speak Polish". Ao que ela perguntou em inglês mesmo se eu ia pra Wroclaw. Respondi "Yes and you?" "Yes". Bom, infelizmente, não pudemos ir muito longe. Agora ela conversa sem pausa com um senhor que fala ainda mais que ela. Já gosto dos poloneses. Mas acho que vou sair daqui com complexo... Quanta mulher bonita! Grandes, de silhueta de modelo, longos cabelos loiros. E eu no meio, na minha ignorância linguística, um pingo de gente com um mochilão nas costas. 

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