"Cada obra pertence ao seu tempo"

Aos 14 anos, na oitava série do colegial, escrevi um texto para uma das matérias da escola. A professora, Andréa Ramos, gostou tanto que me pediu autorização pra trabalhá-lo em sala com a turma. Encheu-me de satisfação e medo. Mas aceitei, com a condição de que ela revelasse a autoria apenas após ouvir os comentários de todos. Foram positivos, ufa... Minha primeira experiência como escritora lida. Um orgulho!
Aos 17 anos, mostrei-o pra Pedro e dei minha opinião de quase quase adulta...


As utopias da adolescência

A adolescência é a hora do tudo ou nada. É a hora de você se conhecer melhor e conhecer o mundo a sua volta também. É a hora de você saber do que gosta ou não, quais são seus princípios e valores, e onde se quer chegar. Depois é hora de ir, com as próprias pernas, traçando o seu caminho.
O mundo é hipócrita e injusto, você quer mudá-lo, moldá-lo à sua maneira e não sabe por onde começar. Como fazê-lo? Sua força no é o suficiente para se fazer impor. Desesperado, você grita, mas seu grito não é suficientemente alto para se fazer escutar. Será que eles não lhe entendem ou é puro fingimento? ... Talvez eles também estejam gritando por ajuda.
A sociedade estabeleceu regras e limites, mas você não os aceita. Isso não afirma que você não quer aceitá-los, apenas nega que eles fazem parte da sua realidade, a realidade que você quer, que você criou ou quer criar.
Você constrói o seu mundo só para si, ele é seu. Nele deposita ideais de amor, solidariedade, amizade, comunhão e todas aquelas que não foram distorcidas pelo mundo lá fora. Essas idéias ainda não lhe desiludiram, não lhe decepcionaram.
Eles dizem que você é jovem e que quando virar um deles, verá que a vida não é assim. Que o que quer é utopia, abstrato e impossível. chamam-lhe de aborrecente, louco e imaturo. Dizem que o que você quer é chamar atenção e que só fala abobrinha. Dizem que você é um egoísta e só pensa em si mesmo, que só pensa em coisas fúteis.
Obviamente você quer passear, namorar, se divertir. Mas não é apenas isso; você quer mais. Você espera mais do mundo, mas só espera e pouco recebe. O que ele tem pra lhe dar são coisas que você não quer aceitar.
Você não quer só passear, quer olhar e sentir com a alma o ambiente e as pessoas que lhe cercam.
Você não quer só namorar, quer amar e viver uma linda história de amor como naqueles contos de fadas que você tem vergonha de admitir em público que sonha.
Você não quer só se divertir, quer ser feliz.
Você sabe que da mesma maneira que o adolescente tem vergonha de fazer, sentir e acreditar em coisas de quando era criança, quando se torna um adulto, também tem vergonha de agor como um adolescente. E tem medo que esse dia chegue da mesma forma que sua infância se foi.
Você quer ser criança de novo pra se sentir ainda mais alheio ao mundo. Mas gosta da sua adolescência e não quer perdê-la. Você até quer ser adulto, ser totalmente independente, ter a sua tão sonhada liberdade.
Mas você tem medo de se deixar corromper, de permitir a morte dos seus sonhos. Até mesmo porque os adultos são teoricamente livres, pois estão presos, acorrentados ao mundo. E não é essa a liberdade que você quer. Você tem medo de ser como eles, de se tornar também um hipócrita, um acomodado a mercê do acaso e que não faz nenhuma diferença. Tem medo que seus sentimentos morram e que você não consiga fazer o que tanto deseja.
Você, então, cria muralhas ao seu redor, mas aos poucos, a hipocrisia, a injustiça, a crueldade, a inércia começam a corroê-las e quando você percebe, já está fazendo parte daquele mesmo mundo que você odiava. Você desacredita no amor e nas coisas boas do mundo. Os seus sonhos e ideais, nenhum você conseguiu alcançar; mas não porque não eram possíveis, e sim por desistir da luta. Você teve medo, foi covarde e, por isso, aceitou, se acomodou e cedeu ao mundinho como todos os outros que um dia foram como você. Eles tinham os mesmo ideais que você, os mesmos sentimentos, mas deixaram esvair o que existia de mais bonito, espontâneo e sincero neles.
Você passa a ignorar seus sonhos e julgá-los ridículos e sem fundamento. Eles viram pano de chão, que você pisa e esmaga com crueldade. Sem saber que com eles você também é enterrado. Eles morrem e apodrecem dentro de você, e você se torna amargo e vazio.
Quando se é adolescente, não se satisfaz com migalhas. Você quer sempre mais. Você vive em busca do seu "eu". Quer o mundo todo, mas não só pra você: quer o mundo todo para todos.
Mas crescido e maduro, você passa a viver de aparências, com máscaras e disfarces. E quando você pára um segundo e olha para si sem a máscara espessa, sente muita vergonha e agora tem até medo de voltar. É aí que você percebe que é um adulto: você quer ser ingênuo e chorar como uma criança, ser rebelde e corajoso como um adolescente, mas não pode, pois é um adulto e deve agir como tal.

Cecília Costa Cabral
2° semestre/2002


Pedro,

Eis neste texto os pensamentos, as angústias e as decepções de uma garota de 14 anos. Algumas coisas permanecem, mas muitas mudaram. O texto é infantil e equivocado devido ao seu radicalismo.
Eu destruí os adultos e o seu mundo. Faltou-me perspicácia, ponderação e Machado. Amadureci (claro que é um processo em constante evolução). Ter jogo de cintura é preciso, e isso não é necessariamente hipocrisia. Além de que é preciso encarar e modificar o que julgo errado, ao invés de me fechar e me privar também das coisas boas.
Você recebe pedras todos os dias, mas tem a capacidade de escolher o que vai construir: um muro ou uma ponte. Optei por várias pontes.
É isso, transcrevi essas palavras repetitivas e sem estilo mais para registro e atender seu pedido que por mérito. Apesar de tê-lo apreciado muito na época. Sei até o que você vai dizer: "Cada obra pertence ao seu tempo". E eu direi: "Sim, e o meu julgamento também."

Céci
06/08/05 - sáb - 00:19


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