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sexta-feira, 12 de junho de 2009

Fluxo

Após mais um período de tranquilidade, eles voltaram. Após o período de hibernação, eles acordaram plenos de energia. Com vigor o suficiente para transpor as muralhas levantadas e derrubar os portões em cadeados. Encadeados eles vêm; unidos são mais fortes. Eles fazem a festa. Eles quebram bonecos de porcelana. Eles reviram baús empoeirados. Eles trocam os quadros de lugar. A agenda é riscada. O bolo queima. Um deles rasgou minha roupa preferida. Outro esqueceu os sapatos ao partir. O mais velho manchou meu sofá de ketchup. Um dos mais queridos não compareceu sem me avisar. E muitos são desconhecidos.

Convivi com eles durante uma semana. Na verdade, o faço frequentemente. Admito mesmo que sinto um certo prazer em ver tudo fora do lugar. Colar os pedaços da boneca, ainda que faltando uma peça. Reorganizar o baú lentamente enquanto vejo as relíquias e revejo o passado encerrado nelas. Com os quadros fora do lugar, os vejo como pela primeira vez, me surpreendo e percebo a beleza em todo seu frescor. Sem agenda perdi um compromisso importante, o bolo era para uma ocasião especial. E o ketchup continua lá. Aqui.

Ouvi atentamente o que cada um me dizia. Às vezes todos falavam ao mesmo tempo. Algumas vezes cortei a conversa e simplesmente me retirei. Caótico. Mas com sentido. Sentido muitas vezes deturpado. Até que lembrei que eles não eram meus convidados. Nem mesmo bem-vindos. Ou tinham deixado de ser. Não tenho muitas certezas. Às vezes a memória evoca vagamente cenas em que me encontro à porta sabotando meu próprio sistema de segurança. Sonho? Pensamentos. Ciclicamente me visitam, mas nunca ficam mais de uma semana. Eles sempre partem, deixando uma enorme bagunça para eu arrumar. Eles me dão trabalho. Eles me tomam tempo. Sinto vontade de escrever o que eles me dizem. Mas me recuso. Não vou registrar algo que não vai durar. Não vou eternizar o que será um passado bobo e distante em dois dias. Talvez amanhã. Talvez mesmo antes de terminar a frase seguinte. Instabilidade.

Em breve cada um deles, o ciumento, o pessimista, o auto-depreciativo, se esvairá diluído nas gotas vermelhas que verserá meu corpo num papel. Outros renascerão silenciosos, como um bebê morto, e repousarão contidos no fundo do meu ventre. Até que num aborto, após mais um ciclo, eles gritarão em nascimento. Inútil tentar se suicidar numa sinapse, se agarrar às paredes do útero, do esôfago. É chegada a hora. A época em que eles vêm me fazer uma visita desconcertante. Um dia, eles encontrarão um forte intransponível. Controle sobre os hormônios. Um ser mais racional para não pensar...



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