Meus queridos contos de fadas

Sempre gostei de literatura. Ainda na pré-adolescência descobri o mundo encantado dos livros. Quando não estava estudando, estava lendo. Ou escrevendo; afinal, todo leitor compulsivo é um escritor por inércia. Lia de tudo, mas a preferência, claro, era: romances românticos! Natural... 11, 12 anos, hormônios sendo produzidos, as amigas namorando, um coleguinha bonitinho ao lado... Encontrei-me, então, nas letras que lia, nas personagens dos livros da editora “Meu primeiro amor”, nas mocinhas dos filmes e novelas. (É, eu via novelas também... Nem tão intelectual assim...)
Mergulhava tão fundo na ficção, apaixonava-me por tantos personagens, que por muito tempo não precisei viver meu próprio romance. Minha mãe agradece, pois demorei até aparecer com um namorado em casa. Ia completar 16 anos! Eu também agradeço; quanto menos história para levar para o casamento melhor.
Fui crescendo, segundo namorado (que é o meu futuro marido). Ingressamos juntos na faculdade. Qual o curso? Letras, claro! E, por incrível que pareça, a leitora e escritora compulsiva foi se perdendo entre os livros de Lingüística, as metodologias de estudo, o estudo sobre as escolas literárias. Não que esse estudo seja ruim; eu mesma o aprecio bastante. Mas não consegui conciliar – fenômeno que acomete um grande número dos estudantes de letras. O curso, principalmente no início, nos afasta da literatura. Mas depois a gente entra em crise de abstinência e retorna às origens.
O empurrãozinho a esse retorno veio de uma professora, ironicamente de Linguística, que apareceu com algo diferente. Colocou pra tocar uma música no estilo medieval e nos pediu que escrevêssemos. “Escrever o que professora?” “O que quiser! O que a música te inspirar.” “Vago demais esse exercício...” Foi aí que lembrei as minhas origens...
Meus queridos contos de fadas
Cecília Costa Cabral, UFPE 2006
Há certas melodias que exercem grande influência sobre mim. São poderosas, capazes de me arrebatar de uma realidade qualquer e me lançar num mundo maravilhoso. Mundo feito de memórias, e, por isso, frágil e efêmero. São o tipo de música que pintam um quadro no qual figuram damas e cavalheiros numa corte medieval a dançar de forma bela e organizada. E não demora pra se formar um quadro todo em texto corrido, onde posso ler um conto de fada. Gostaria de poder descrever com ciência a que tipos de melodias me refiro, mas a imperícia no assunto me impede. O que sei é o que sinto. E eu me sinto muito bem sob a sua influência sobre meus sentidos de romântica incorrigível, mesmo sob o véu dos maduros dezoito anos.
Meu fascínio por contos de fadas é antigo; habita em mim desde que me entendo por gente. O entusiasmo com o qual me derramava por sobre um livro ou um filme ainda hoje me comove. Comovem-me os sonhos, a fantasia, a falta de discernimento para distinguir claramente realidade e ficção. Mas que doce ficção. Sempre acompanhada, quando em filme, por belíssimas canções. Típicas dos contos de fadas. Canções que dançavam no ar, batendo suas asas à minha frente me convidando a sentir a sua magia. Convite o qual aceitava prontamente, sempre disponível para o devaneio. E eu ia alegre e satisfeita carregada por suas mãos de fada encantada.
Não serei hipócrita dizendo que esse tipo de encontro tenha ficado preso à minha infância. Admito, sem muito esforço, que ouvir certa melodia familiar ainda me faz muito bem. Digo mais: que ainda recebo e aceito seu convite. Corro saudosa, embora não tão ingênua quanto antes, a acompanhar-lhe no passeio. Abro o reluzente baú guardado em lugar de honra do meu peito, e, com um sopro leve, tiro a pouca poeira sobre o objeto não mais freqüentemente usado como outrora. Os olhos redondos e pedintes mirando o vestido amarrotado. Visto-o totalmente rendida. A roupa e os sapatinhos revelam-se menores que o corpo, mas ainda servem. Parece que sempre servirão.
Criança, costumava ficar horas no devaneio. Dias até. Choramingando meu ultrapassado amor cortês; fiel adepta, mesmo desconhecendo o nome, do platonismo. E ao mesmo tempo ansiosa pelo beijo do príncipe, namorado primeiro e último. Contradições da meninice. Não diria que sou a mesma de antes, ao contrário, não há muito em comum entre a autora e a personagem. As crianças crescem, mesmo as que não querem. E as moças amadurecem, ainda que a duras penas, ou principalmente assim. Mudança é inevitável. E a principal diferença entre as duas é a consciência do que é real e do que é fantástico. Não que o real não seja fantástico; quis dizer fantasioso. Mas o fato é que sei bem a hora de voltar ao mundo físico e viver de fato coisas concretas.
Minutos depois, a música, qualquer que seja, sempre chega ao fim. As vestes retornam ao baú. E este é guardado de volta cuidadosamente. Segundos após, o passeio também acaba. Acordo, ainda alegre, para a vida que tanto amo. Não o príncipe, mas meu namorado está ao meu lado; também não é o primeiro, mas há esperança de que seja o último. Ecos do passado, que não precisa ser rompido definitivamente. Agora, voltarei à rotina de estudante universitária, chegarei cansada em casa e lerei “Dom Casmurro” ou “Capitães da Areia”. Outras paixões, adquiridas em outra fase da vida. Contraditório, não? Eu sei... Mas quanto carinho sinto pelos meus queridos contos de fadas.
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