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sábado, 29 de março de 2008

O grande dia

O grande dia seria sábado. Deu bastante trabalho planejar tudo sem Cecília. Eu me acostumei a planejar as coisas com ela. A pior parte foram as mentiras. Nunca menti tanto em toda minha vida. Certa manhã, estávamos no jardim do CAC (Centro de Artes e Comunicação), na UFPE, esperando a hora de uma aula de francês, quando o meu telefone toca: "número oculto". Quando atendo:


- Bom dia, sr. Bernardo. Aqui é Laila Freitas, da H.Stern. O sr. pode falar no momento?
- Não.
- Certo. Então, enrola ela aí, que a coisa é importante.
- Certo, Carlos. Aula quarta-feira às 7. Tudo bem. (Carlos é o diretor da Idea Idiomas)
- As alianças estão chegando em Recife quarta feira.
- Certo. Estarei lá. Pode preparar as cópias das lições um e dois.
- Ok. Boa sorte!
- Obrigado. Até logo.
- Tchau. Tenha uma bom dia.

Depois disso, fiquei pensando: como sou mentiroso. Será que estar no preparo de uma grande felicidade justifica uma grande mentira? E duas? E três?


Outro dia, eu estava caminhando na rua da Hora, Recife, visitando restaurantes finos, procurando o lugar ideal. Conversei com muitos garçons e maîtres que esperavam seus clientes, que já começavam a chegar. Eu, "cliente título a ser resgatado", nunca chegava mesmo até o fim. Contava sempre a mesma história:


- O senhor conhece um lugar perfeito?

- Perdão?
- Se o senhor conhece um lugar perfeito. Ideal, entende?
- Qual seria a ocasião?
- Vou pedir minha garota em casamento.

A partir daí, a conversa tomava outro tom. Eram todos solidários, ou meu otimismo estava desajustado. Eu andava entre um restaurante e outro quando Cecília resolveu ligar. Perguntou onde eu estava. E eu ia mentir de novo. Eu não tinha escolha! Ou tinha? Sim, tinha!

- Estou na rua, minha flor.

Era verdade! Mas era uma estranha verdade de pernas curtas.

- Na rua onde? Fazendo o que?

Ela estava implacável. Tive que mentir, enfim. Disse que estava a caminho da casa dela, que tinha demorado mais na Wizard corrigindo exercícios, ou coisa assim, que a socegasse. Não sei se a socegou. Na verdade, duvido. Ela tem um faro aguçado para mentiras.

O pior da mentira é a manutenção. Eu tinha que inventar história por cima de história para manter o que havia dito, e isso me estressava muito. Discutimos algumas vezes por causa disso. Ela sentia que havia algo de muito suspeito, mas não sabia nem se era bom ou ruim.

Quinta-feira, depois de uma certa conversa atrituosa, resolvi abandoná-la! Saí batendo o pé e... fui buscar as alianças. Lá no fundo, eu estava feliz. Eu conheço o sorriso de estrelas que floresceria no seu rosto quando ela visse as jóias. Entretanto, o incômodo de não poder dividir aquela felicidade com ela aflorava no suor que Recife arranca de mim, como um imposto, todos os dias.


Na joalheria coberta de couro e pejada de ouro, encontrei uma moça chamada Laila, que quer dizer "noite" em hebraico. Ela estava empolgada com meus projetos, talvez porque fosse noiva, ou somente por ser mulher. Quando ela trouxe as alianças, trouxe também um sorriso ornado com aparelho odontológico branco, que eu não saberia se adolescente ou elegante. Seu noivo havia feito uma surpresa inesquecível, romântica, irrecusável. Eu precisava fazer o mesmo. Precisava ser perfeito. Pensava nisso quando ela disse:

- Eu conheço o lugar perfeito.

Ótimo! Este é o lugar que eu procurava, pensei.

- O Boca Tratoria. É da família Jiuliano, só que menor que o Bon Gustaio.

O Bon Gustaio tem uma cozinha excelente, mas é caro, grande e fica numa avenida movimentada. Se um filho estivesse afirmando o talento da família e a própria independência num lugar mais aconchegante, poderia mesmo ser perfeito.

Quando deixei a joalheria, lembrei-me de como Cecília estaria chateada. Como eu faria para me reconciliar com ela? Não vale pedir-lhe a mão, claro. Comprei flores. O arranjo era de três rosas. Paguei o mesmo preço por duas, porque queria um par, como o par de anéis de ouro que eu trazia em segredo.

Não tive tempo de visitar o "lugar perfeito", mas confiei na opinião de Laila. Sexta, à véspera do grande dia, pela manhã, Cássia, irmã de Cecília, fica gravemente doente. Vai parar num hospital, onde ficaria internada, com princípio de pneumonia, por pelo menos três dias.

Falei com o pai das meninas sobre minha idéia, antes de executá-la, conforme reza a tradição. Ele ficou surpreso. Fez cara de confuso, e manteve um sorriso. Depois disse que seria mais prudente esperar que Cássia estivesse melhor. A mãe dela não iria gostar. Talvez, nem Cecília mesma aceitasse...

Certo. Mais uma semana de mentiras. É claro que eu também estava preocupado com Cássia, mas eu também estava a ponto de adoecer com aquele jogo, e eu não tenho plano de saúde.

Cássia tem. Estava num hospital relativamente confortável, e parecia bem quando eu fui vê-la. Pensei em não esperar, mas continuava com dúvida. Fui visitá-la no sábado e no domingo. Na segunda, chamei Cecília para almoçar; fomos comer pizza perto de casa. Conversamos, conversamos, e eu sentia que ela já sabia. Eu tinha a impressão de que não haveria surpresa. Resolvi enrolar a moça ainda mais algumas horas. É verdade que eu já sabia que não faria o pedido naquele momento. Não era um momento perfeito. Estava longe disso. E a impressão de que não seria surpresa era invencível. Não dava.

Depois de comer, fomos pra casa, ver minha irmã, Mel. Num certo momento sem Cecília, disse a Mel que eu estava frustrado, que tudo estava dando errada, que Cássia tinha que ficar doente justo naquela véspera, que eu não agüentava mais ser tão estranho pra Cecília, e outras coisas. Mel, na sua praticidade, disse:

- Por que você não abre aquele vinho e pede agora?

Certo. Isso seria surpresa. "Isso é loucura!", pensei. Mas nada como uma pequena loucura para ficar na nossa história.

Peguei a garrafa de vinho chileno, empoeirada, guardada havia muito para uma ocasião muito especial. Tinha sido presente de um amigo aluno, que voltava de viagem.

Pois eu decidi jogar todos os projetos de surpresa e momento perfeito pro alto. Peguei a garrafa e... cadê o saca-rolha? Eu estava sem beber vinho havia meses. O saca-rolha poderia já ter sumido há muito tempo, eu não teria notado mesmo. Comecei a pagar imposto extra a Recife. A farda branca da escola estava úmida. Tentei abrir a garrafa com uma faca de mesa. Enfiei a faca até a metade da rolha e comecei e puxar, girando. Ia dando certo, até que a rolha se rompeu, e ainda havia metade dela para sacar. Enfiei a faca com uma certa inclinação, para tentar tirar o resíduo rebelde do gargalo. Foi aí que algo surreal aconteceu. Sob a pressão que eu aplicava à faca, uma sorte de explosão espirra vinho por toda parte. Minha farda fica toda respingada. Farda branca. A pia também, a geladeira, até no teto tinha bolinhas de vinho. Quando retomei consciência, notei o resto de rolha desfigurada boiando no vinho dentro da garrafa. Maldito saca-rolha rebelde, fugido!

Tirei a farda para enxugar a geladeira, e a deixei na pia, de qualquer jeito. Olhei para as taças e pensei: vou acabar quebrando isso também. Apesar do pensamento mal assombrado, peguei duas delas e servi o vinho com todo cuidado. A idéia de fazer o pedido com vinho em copos de plástico não me pareceu mais ridícula do que cacos de vidro no chão por acidente.

Não quebrei as taças. Mas apareci pra ela lacrimejando de raiva, e rindo de felicidade. Rindo mesmo, gargalhando. Contraditório, mas no meu direito de ser humano e, portanto, contraditório. Ela ria como se eu fosse o mr Bean. Eu era o mr Bean. Uma espécie rara de mr Bean com noção do estrago que causara.

- O que é isso? Você abriu esse vinho?
- Eu sou um desastre...
- Meu Deus! O que houve?
- Olha. Eu tenho uma coisa aqui pra você, disse abrindo o criado-mudo.

Retirei a caixinha embrulhada com uma fita dourada, e ela soube de tudo.

Quando abrimos a caixa, lá estavam elas. Meros símbolos, é verdade. Mas nada como uma coisa eterna para mudar o humor.

Bernardo de Sousa
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