Elias voa

São 4 horas da manhã quando começo a escrever esse texto em Recife. Sinto muito sono, mas não consigo dormir. Como eu entendo Elias... Ele estava tão feliz, tão entusiasmado com tudo que não queria dormir de jeito nenhum. Chegou na casa do avô como quem chega pra mais um fim de semana; estava em casa. Imagino que o apartamento tenha evocado boas sensações de boas lembranças profundamente enraigadas em seu subconsciente, criadas nos seus primeiros 10 meses de vida em cada sábado que passou aqui. Ele só dormiu às 2 da manhã, abraçado com o carro que ganhou do avô. Até Spyke, o cachorro da família, cansou antes dele. Quem conhece esse Yorkshire ávido por carinho e brincadeira sabe a amplitude desse fato. 
Voltando um pouco no tempo...
Comecei a arrumar minha mala às 14h, sabendo que teríamos de sair de casa às 15h15. Oi, você pessoa organizada, precavida, que faz tudo adiantado, pode me achar louca. Mas um ponto a meu favor: pensei em lavar as roupas com bastante antecedência, assim tudo o que eu queria levar estava limpo e seco. Quem viu a viagem pra Polônia sabe bem do avanço que isso representa. Saímos na hora certinha, pegamos Elias na escola e fomos direto pro aeroporto de Guarulhos. Google maps indicava uma hora e meia de percurso, então tínhamos bastante margem, visto que o voo era apenas às 19h50. Elias muito feliz, falante, comendo biscoito, ouvindo e tentando apreender todas as implicações do "a gente vai entrar num avião e vai voar". Estrada boa e tranquila. Família feliz. Até que...
Começa a chover torrencialmente; não lembro de ter pego tanta chuva na estrada. Pedro super concentrado; eu tensa. Elias falando, pra variar. A cada vez que olhávamos o Google maps o horário de previsão de chegada estava 10 minutos mais tarde. Entramos em São Paulo; muito, mas muito carro. Até comemoramos quando conseguimos a voltar a andar a 30km/h na chamada "via expressa" (ai como eu gosto de uma boa ironia). O bom humor de Elias foi se esvaindo aos poucos. No fim ele tava chorando dizendo "cadê a luz do caminhão?" Tava chorando de cansaço, de sono, e tava falando qualquer coisa porque ele tá no modo nunca-paro-de-falar. O que eu acho altamente apaixonante a grande maioria das vezes. Mas não sempre. Desculpa por eu ser humana.
Finalmente Elias dormiu. Finalmente nós chegamos. 50 minutos depois do previsto inicialmente, mas ainda assim com bastante antecedência. Pedro chegou em casa a tempo pra dar sua aula de inglês e eu e Elias tivemos mais de uma hora pra... comermos e brincarmos. Elias correu o aeroporto de cima a baixo, brincou de corrida, desenhou, fez cadeirismo, engatinhou, subimos e descemos escadas rolantes incontadas vezes, vimos lojas, quisemos comprar objetos caros demais pros meu bolso, fomos o banheiro. Sim, ir ao banheiro público com uma criança é todo um evento! Foi como estar num parquinho de concreto e todo diferente. E com muito mais gente. E perigos. E espaço. Sim, cansei e não via a hora de entrar no avião, embora temesse o comportamento dele durante a viagem. 
Eu já tinha feito o check-in em casa, pelo site da TAM e despachei a mala assim que cheguei. Vale a pena registrar minha satisfação em não ter enfrentado nenhuma fila em todo o processo. Pra despachar, tinha apenas uma pessoa à nossa frente. Na hora de passar na maquininha de controle (sei lá como chamar aquilo) nos indicaram a fila preferencial com 0 pessoa nela. Depois fomos uns dos últimos a embarcarem pois eu queria justamente evitar filas. Uma maravilha. Fora que eu me sentia no mundo dos ursinhos carinhosos. Todo mundo falando com Elias, conversando com ele, sorrindo. No avião a mesma coisa. Eu achava que as pessoas ficariam logo preocupadas quando se vissem sentadas próximo a uma criança, mas as pessoas ao redor brincaram com ele, o rapaz sentado do nosso lado até foi de grande ajuda contando uma historinha num momento de cansaço e choro de Elias. Não durou muito, mas sim, meu filho fofinho e bem educado deu uns bons berros no avião enquanto pessoas de bem tentavam dormir. 
Assim que entrou no avião Elias estava fascinado. Ele repetia com os olhinhos brilhando "eu tô dentro do avião". Não desgrudou da janela olhando os carros, tratores, aviões e outros meios de transporte cujo nome ignoro. Depois falava "um, dois, decolar!!" e nada do avião decolar. 10 pessoas tinham tido a habilidade de despachar as malas e não embarcar. Tivemos que esperar procurarem as tais malas pra deixá-las em São Paulo. Eu ainda não consigo entender o que pode levar a esse tipo de situação. Se você tiver uma ideia, please tell me! Quando decolou, eu estava meio tensa, perguntei se ele queria pegar na minha mão e ele recusou. Ele estava bem. Nem tinha percebido direito o que tinha acontecido. Mas depois ficou se contorcendo pra tentar ver "a cidade, a cidade, a cidade" sem tirar o cinto. 
Deu tempo de ele olhar até enjoar a cidade depois, olhar a revista do avião, brincar com carro, com o George (brinquedinho), jogar os joguinhos do celular, querer ver a Luna, o Tayo, Super Wings e tudo o mais que não podia, pois eu, claro, não baixei NEM UM videozinho sequer (seja uma melhor mãe que eu). Rolou lanchinho (eu já vi criança comer só o recheio, mas Elias roeu o pão e deixou o queijo e o presunto). Rolou até fralda vazando (ô, que maravilha). Eu não queria ter que usar o banheiro do avião e alimentei a vã esperança de que aguentaria até chegar em Recife. Bom, eu paguei o preço. 
Mas no final o que rolou mesmo foi muito abraço, muito riso, muita gente feliz. Tia Nana, Cássia, Daddy e Fátima nos esperavam no aeroporto de braços, coração e sorrisos abertos. É uma satisfação imensa pra mim ver Elias conhecendo melhor gente que o ama tanto, gente que (espero) ele aprenderá a amar. Isso é o que me move. 



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