Clermont-Ferrand

Na terça-feira, Mel, Luigi e eu pegamos a estrada de carro em direção a Clermont-Ferrand, onde Mel passaria a noite para seguir até a casa dos sogros em Châteauroux. Os amigos que puderam conhecer Mel atestaram atônitos: "É Bernardo de saias!" E realmente se parecem. 


Em Clermont, descansei bastante. Só fiz ir de casa em casa pra rever amigos e comer. Tudo isso sendo muito paparicada por todos; não peguei ônibus em nenhum momento. Tirei poucas fotos de algumas pessoas apenas. Eu não me sentia a turismo ou de férias. Andar nas ruas de Clermont foi como estar em casa. Eu quis apreciar os momentos com os amigos, como que num fim de semana qualquer. Foi interessante, apesar de não ter registro em imagem. Fica a memória. De qualquer maneira, eu estava num clima diferente. Simplesmente não queria fotos.  
Clermont me evocou boas lembranças e ao mesmo tempo jogou na minha cara a ausência do marido. Mas só ela terá a afeição do primeiro amor. Foi nas terras sinuosas do Massif Central que fundamos os alicerces do nosso casamento. Em Clermont senti muita saudade. O jardim Le Coq, a loja Go Sport (onde compramos 3 bicicletas e nossos equipamentos de inverno), as ciclovias, o majestoso Puy-de-Dôme, todos me olhavam surpresos. Parecia que cada canto da cidade me indagava o que eu estava fazendo lá sem Bernardo. Pergunta verbalizada por cada amigo, cada irmão da igreja, uma certa menininha linda chamada Esther tentando me matar do coração ao perguntar com os olhinhos caramelo e derramados: "Quando é que que Bernardo vem?" O grande-pequeno Nathan incarnou a revolta e admitiu ao pai que preferiria que Bernardo tivesse ido no meu lugar. Como se chatear com da sinceridade infantina, principalmente diante de tamanha afeição a um ser que tanto amo? 
Foi em Clermont que tivemos que trabalhar pra sustentar uma casa e uma família pela primeira vez. Onde batalhamos pelo nosso sonho. Onde vimos neve pela primeira vez. Onde aprendemos a lidar com a rotina num casamento e a quebrá-la também. Onde elaboramos os projetos mais mirabolantes como ir de bicicleta pra Suíça em pleno inverno. Onde aprendemos a dormir coladinhos numa cama de solteiro. Onde descobrimos um mundo de jogos de tabuleiro e eu descobri que ele é um mau perdedor tal qual a mãe (alfinetada!). Onde instauramos o carinho matinal, a oração antes das refeições e os passeios de madrugada. Onde eu descobri que ele fala enquanto dorme. E ele descobriu que meus músculos tem uns espasmos nervosos quando eu durmo e nomeou carinhosamente isso de "brilhar como estrela". Onde ele descobriu que eu poderia ser uma viciada em faxina e eu entendi o desespero de Mel com a bagunça dele. Onde eu aprendi a correr e a pedalar. Também onde quebrei a mão pela primeira vez. Onde aprendemos a depender da graça de Deus. Onde aprendemos a servir a Igreja de todo o coração. Onde fizemos amigos pra vida toda. Onde vivemos a alegria e a tristeza de uma primeira gestação interrompida. Onde descobrimos que eu também prefiro a montanha. Onde eu o vi apender bateria. Onde organizamos grandes eventos juntos. Onde tivemos nossas piores brigas pelas maiores besteiras e onde aprendemos a lidar com isso. Onde ficamos presos no elevador depois de um mês especialmente difícil. Onde experimentamos a solidariedade de amigos e de quase desconhecidos também. 
Clermont foi uma escola onde aprendemos muito. Bom saber que voltaremos ainda muitas vezes, pois os amigos que fizemos não ficaram confinados nas boas lembranças.
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