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segunda-feira, 25 de junho de 2012

Lisboa


Lisboa, 11h45 (hora local). Vôo tranquilo. Muito sono. Comida não muito boa. Café intragável. Aeromoça meio mal educada, abria e fechava a minha janela quando bem entendia, sem pedir licença, me dando alguns sustos (dois, para ser precisa). O avião estava lotado. Na parte em que estava só vi três assentos livres, e um era do meu lado. Ninguém do meu lado. Eu do lado da janela. Perfeito. Deus não se contentou em me proteger, Ele decidiu me mimar ! Dormi o vôo quase todo, só acordava pra comer. Peguei dois cobertores, duas almofadas (três, pois elas se multiplicaram enquanto eu dormia) e me instalei o mais confortavelmente possível e dormi de sonhar.

Depois do café da manhã, decidi ver um filme. Comecei a ver « Rio ». Estava legal, mas chegamos ao destino final antes de poder terminar o filme ; frustrante. Uma vez landed, sem ter tanto tempo quanto imaginava, resolvi ficar no aeroporto mesmo, que é grande e tem uma área de alimentação digna de shopping brasileiro na área de embarque. Indo para a porta prevista para meu vôo, passei por uma senhora, velhinha, carregando uma sacola e um instrumento musical, pedindo « some help » pra um funcionário que disse não poder ajudá-la. Eu estava mais à frente. Hesitei. Na Europa ocidental as pessoas não costumam falar facilmente com desconhecidos. Se eu estivesse na Polônia não teria hesitado. Mas parei para observá-la. Ela estava cansada e parou, apoiou seu instrumento no chão. Não pude resistir. Os exemplos que tive na vida me faziam sentir como minha responsabilidade. Lembro da minha mãe, do meu pai, de Jether (o sogrão).

« Do you need some help, mam ? » Eu nem lembrava que eu falava inglês.
E ela me explicou tudo enquanto andávamos para o portão 41. Ela e sua acompanhante (de seus 60 anos talvez – lembrava tia Ciça) estavam constrangidas :
« You're going to the same gate ? »
« No, but it's not a problem. I have a lot of time. »
A senhora falava com mais eficiência do que andava. E me explicou, ofegante, que estava vindo pra Lisboa pro casamento de um sobrinho, onde ela tocaria « mend ... l ...g »*. Ela falou mais do que isso, mas tirando as repetições, a informação é essa. Ela estava toda orgulhosa do seu « mend ... l ... g». E a acompanhante dizia « Don't talk ! You're gonna be tired ! Just walk ! ». « I'll never make it... ». Mas ela continuava andando e falando e repitindo « I'm here for a wedding ». Eu só fazia rir. No final, elas me agradeceram enfaticamente e partiram. I like them :)

A vista de Lisboa é bela. Do alto, a impressão é de que a cidade é bastante organizada. Pude ver o famoso monumento em homenagem à época das navegações, cujo nome não lembro nem posso pesquisar na net, uma vez que wi-fi aqui é paga. O rapaz sentado atrás de mim, exclamava : « Nossa como é lindo ! Meu Deus, é lindo demais ! »

Bom, agora eu vou ler "La planète des singes", presente de um amigo em Clermont que visitarei em breve.

* Mandolin (na hora de postar eu bem que tive que estar na net)




sexta-feira, 22 de junho de 2012

Amargo Bem




Amargo. Drogas. O que são drogas? A definição é difícil, mas me parece covardia recorrer a um dicionário, tão trivial nos parece a palavra. Ouvimos falar de drogas nos noticiários, nas conversas com os colegas de trabalhos, nos púlpitos das igrejas, nos tons mais variados, com e sem polêmica, lemos a plavra “drogaria” quando andamos pela cidade, e ainda assim eu cogitei citar um dicionário aqui, no lugar sagrado da espontaneidade.
Não. Eu me recuso. Vou assumir o risco do engano, que se confunde com a hipocrisia, que vem da mentira, ou pelo menos leva à ela. Grande risco.
A princípio, eu deveria considerar primeiro o que droga significava para mim quando eu era criança, antes da poluição mental dos adultos. Isso trará à minha definição toda a legitimidade que qualquer palavra merece. Para mim, a palavra droga apareceu primeiro na sua forma mais prosódica. Ela só valia algo pela quantidade, porque não significava nada mais do que “bosta”, “caramba”, um inexpressivo “poxa”, ou ainda o seu primo vulgar, que geralmente eu prefiro evitar, principalmente por escrito. Uma pobre interjeição. Hoje, eu sei que essa família de desempregados arruaceiros inúteis e onipresentes da linguagem tem o gene da reprodução e evolui mais rápido do que qualquer outra classe, o que condena meu texto à sua época. Tudo bem. Eu não me importo em dar emprego a algum tradutor automático de daqui a duzentos anos. Hoje, em respeito à criança que um dia eu fui, digo que a definição mór de droga não passa disso. Talvez Saint-Exupéry aprovaria a intenção.
Mas o que levou esse adulto chato a escrever hoje foi café. Algo que nos leva a outro significado para droga, imensamente mais complexo, e que vai certamente deixar o parágrafo acima apagado, por mais legítimo que ele seja. Estamos falando de substâncias. Acredito que esta seja a maneira mais ampla de abordar a coisa sem se servir desse coringa todo poderoso, coisa. São substâncias. Mas já que água e oxigénio, assim como naftalina e açúcar, também são, é preciso ir além.
Vejamos primeiro o óbvio. A distinção não pode tocar no assunto legal ou ilegal, porque todos sabemos que as duas formas existem.
Seria algo que faz mal à saúde? Pode ser. Digamos que qualquer droga em excesso faz mal, mas isso não seria definitório já que mesmo substâncias vitais também fazem; excesso de carboidrato é igual a diabete e obesidade e tudo que vem junto; excesso de proteína faz mal pros rins; até água faz mal pro desidratado se ele beber demais de uma vez.
Se falarmos de efeitos psico-ativos, abrangemos um número desconcertante de drogas e, curiosamente, as mais pensadas quando se fala no assunto. Talvez porque esses bípedes pensantes apreciam bastante essa abstração mágica pela qual construimos nosso mundo pessoal, sempre que não estamos em viagem conhecendo o de outra pessoa, ou sendo bons anfitriões recebendo alguém no nosso. Por mais tentador que seja se demorar mais neste parágrafo, é melhor enfiar na cabeça que ele não vai nos ajudar mais do que numa única classe de droga e seguir portanto em frente para o próximo.
Podemos eventualmente receber alguma ajuda de outras crianças. Alguns de nós vão se lembrar de remédios amargos. Talvez a necessidade de crescer, que requer tanta energia, nos fizesse dividir assimetricamente os nossos gostos, concentrando-o todo nos doces. Só depois, com o metabolismo preguiçoso da meia idade, ou com o melancólico dos velhos, é que dividimos de maneira mais igualitária os prazeres, e começamos a gostar de café. Foi um pouco  dessa bebida velha como um livro monótono que me fez começar a escrever. Enquanto degustava, sem açúcar para não ter desculpa para não perceber o amargor, pensando no princípio ativo, cafeína, eu me lembrei de que já havia jogado fora horas de raciocínio sobre esse assunto, e julguei que já era hora de parar de desperdiçar ideias e escrever algo para este blogue, depois de meses de silêncio.
A busca pela sinceridade do café me levou ao que talvez seja uma boa pista nessa investigação das mais inúteis e menos metódicas. O gosto ruim. Reveja o primeiro parágrafo e perceba que essa ideia não me ocorre agora. Ela tem sido contida ao longo do texto até agora. Para não ficar longo demais (nos padrões internéticos de hoje, já é um fracasso), vou transformar esse prato principal em sobremesa. Uma sobremesa das mais estranhas e injustas, como a que se experimenta num país exótico, para não perder a chance de ser cobaia, pendurado entre o espírito aventureiro e a intuição de que vai se arrepender.
O café é amargo. O álcool, ninguém sabe se dói ou coça. O fumo é fumaça que se respira. A cocaína não é gaz, é pó, mas é respirada também. A heroína pega atalhos intrusivos para chegar ao sangue. Comprimidos, qualquer um que seja, é engolido com água!
Cada droga tem seu jeito de golpear pra entrar. Talvez a explicação esteja no instinto primitivo de brigar, de guerrilhar na selva da própria cabeça, consciente ou não, no bom comportamento do escritório ou na revolução da noitada, esse instinto primitivo que empurra o homem na direção de um tapa social mas privado, público mas cercado de cúmplices, amargo e adulto como o pensamento do homem cultural. Por que não?

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