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domingo, 5 de dezembro de 2010

Primeiro "encontro"


Aula de redação. Inútil e tediosa. Ele está sentado na carteira vizinha, ambos na primeira fila. A proximidade do professor não foi o bastante para intimidar Pedro. Foi assim que ele iniciou nosso primeiro diálogo. 

"Pedro - Lá fora, as meninas estão conversando em voz alta. Sabe por que eu não posso me juntar a elas? Porque eu já saí do anonimato nessa aula. Se fosse Kenji, eu já estaria lá. Antes, o professor nem sabia meu nome; agora sabe o sobrenome, a escola literária preferida e que vou fazer letras. Lutei por ser notado. Involuntariamente, é verdade. Agora tenho saudade dos primeiros dias. E toda sua liberdade.
Cecília – Essa aula faz doer teu coração também?
Pedro – Não. A aula é enfadonha. O coração é só um músculo que bombeia sangue.
Cecília – Chato2. Me admira você, um amante da literatura, um cara sensível e observador não entender uma metáfora tão simples.
Pedro – Que comentário destruidor. Eu poderia cair morto depois de um tiro como esse. Você é sem-dó². Pô, eu estava brincando...
Cecília – Qual é a tua escola literária preferida?
Pedro – Realismo. No Brasil, começou em 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis. Tem a ver comigo. Olho para as pessoas e vejo... as pessoas. Só isso. Não são mais do que pessoas. Reconheço que, às vezes, por descuido, mostro traços de outras escolas. Na essência, é Realismo.
Cecília – Eu também, porém, por causa de Capitu. Ela é fascinante, uma personagem muito bem feita (talvez a melhor). Analisá-la é intrigante, mas gosto dela, a entendo, a admiro e, algumas vezes, me identifico com ela.
Pedro – Estou perplexo. Deveria até ter usado um ponto de exclamação. - !!! um monte. É uma das melhores, mesmo. Se você tem um pouco dela, tem muito de mistério, serenidade, segurança, decisão e beleza. Não conheço você tão bem quanto conheço Capitu. Só o que vi de você foi o último dos adjetivos que enumerei. Pronto. Fim da aula."

Não é o que eu chamaria de um primeiro encontro convencional. Esse início está mais para "pedras e livros". Quem poderia prever o romance que estava por vir e todas as pétalas que guardaria "Dom Casmurro"?
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