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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"Jovem, aproveite a sua mocidade" Eclesiastes 11:9

Primavera. Mamãe Árvore, após um longo inverno de gestação, deu enfim à luz as primeiras folhas da estação. Bem alimentadas com a seiva vinda de longe, bem iluminadas e aquecidas pelo fiel sol de abril, as folhinhas cresceram saudáveis e numerosas. Elas sorriam verdes e satisfeitas, cantando e dançando com seu melhor amigo, Vento. Mamãe Árvore, sempre hospitaleira, recebeu as primeiras visitas. Uma delas, um certo Pássaro, de plumas negras e amarelas, se instalou definitivamente e fez de Árvore seu ninho. As folhinhas ficaram todas entusiasmadas com aquele ser. Belo, imponente, independente e

- livre... Mamãe, eu queria ser como Pássaro! - disse Folha, a primogênita.
- Por que, filha ?
- Eu queria voar. Ir pra longe, conhecer novas terras.
- Sinto muito, mas isso é impossível pra você.
- Quer dizer que eu estou fadada a passar a minha vida inteira presa a você? Isso não é justo!

Mamãe Árvore, vislumbrando o momento em que suas filhas, uma a uma, partiriam, calou-se. O silêncio pesado, de quem sofre calado.
Folha, durante a adolescência, no auge da rebeldia, aliou-se com algumas de suas irmãs numa tentativa de fuga em massa. Esperaram um momento em que Galho estava distraído, seguraram o fôlego, contaram até três e se prepararam para saltar todas juntas. O abismo diante delas, o desconhecido. Mas nada aconteceu. Elas se esticaram o máximo que puderam, mas impossível escapar de Galho.
O outono chegou. Folha amadureceu, ganhou cores cor de fogo. As brincadeiras com Vento ficaram mais intensas. E às vezes ela tinha até a impressão de voar. Certo dia Folha viu uma de suas amigas partir voando, colorida, dançando com Vento. Ela decidiu tentar saltar novamente, sozinha. Sentia que dessa vez algo estava diferente, que Galho não a prendia mais como antes. Fechou os olhos. Abriu os porinhos. E em alguns instantes ela estava girando e girando no ar. Abriu os olhos e se viu lado a lado com Pássaro, as asas abertas. Voavam. Folha não cabia em si de tanta alegria.
Horas depois ela foi perdendo altitude. O chão cada vez mais perto. Estava sozinha agora. Deitou. Estava perdendo as forças. Entendeu que estava morrendo. Ela estava feliz.
Folha não foi Pássaro, mas seu sonho fertilizou a terra.
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