Flores e água

Se concordarmos que beleza é uma grandeza circunstancial, logo, concluimos que não se pode esperar que estas linhas vislumbrem o tema o bastante para chegarmos a uma conclusão definitiva. Sejamos módicos.
Uma flor é coisa frágil, às vezes cheirosa, leve e tem sua imagem vinculada a pessoas enamoradas. Água é transparente, maleável e abundante. Três adjetivos que, quando juntos, conferem imagens lindas. Imagine, por exemplo, um riachinho. Não um rio enorme, que arrasta qualquer um que tentar acariciá-lo, mas um riachinho, pequeno, agitado, jovial, fazendo um barulhinho contínuo e doce, refletindo parte da luz do sol, deixando entrar e sair o resto dela, que ilumina pedrinhas redondas no fundo. A imagen é, inegavelmente, linda.
Agora, olhe para uma rosa amarela. A luz do sol, a mesma que brinca com o riacho, é ainda mais dourada nas pétalas da rosa. O amarelo do sol soma forças com o da flor. São aliados. Os espinhos carregam o mesmo gênero de beleza que deslumbra quem está diante de uma fortaleza de pedra, ou de uma espada, daquelas orientais, reluzentes. Trata-se da beleza que votamos ao que é forte e fere. Devo lembrar que, se algo é belo, nós, os donos dos olhos, é que lhe aplicamos essa dádiva. Ao lado do espírito guerreiro dos espinhos, temos a fragilidade silenciosa das pétalas. Um peteleco e lá se vai aflor. Seria maldade, decerto. A fragilidade também é coisa bela. Belíssima, às vezes.
Agora, imagine aquele riacho cercado de flores. E aquela rosa sob uma chuvinha fina e o mesmo sol. O que, aliás, daria um arco-íris. Mais importante do que a dúvida – o que é mais bonito? – é somar belezas. Somar as mais distintas belezas possíveis.

Pedro Bernardo - maio de 2005

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