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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Estratégia

Méditerranée é um formidável jogo de estratégia. Quando estávamos na Suíça há alguns meses, na casa de Jonathan MEYLAN, nosso caríssimo amigo que nos iniciou a Linux, nós jogamos nossa primeira partida desse jogo de comércio e conquista. A primeira batalha da partida foi um ousado desafio de Érica, grávida a essa época, contra seu marido.
A competição nesse jogo é tão aguçada que os cônjuges são os primeiros alvos.
Depois desses dias inesquecíveis na Suíça, nós voltamos para a França falando desse jogo. Há algumas semanas, Éric, um dos pastores da nossa igreja, nos deu essa caixa mágica, comprada de segunda mão, objeto raro, item de colecionador, num Natal antecipado. Na noite do presente, nós não tivemos tempo para uma partida, mas poucos dias passaram antes que as primeiras galeras se lançassem ao mar em busca de aventuras nos nossos 27 m².
O vídeo abaixo dá alguns indícios das emoções vividas durante uma partida de Méditerranée. Ele foi gravado ontem, na casa de nossos amigos indianos da igreja, os BONIFACE.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Relacionamento

Rubem Alves

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos (relacionamentos) são de dois tipos: há os casamentos do tipo Tênis e há os casamentos do tipo Frescobol.

Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam mal. Os casamentos do tipo Frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. Explico-me.

Para começar, uma afirmação de Nietzche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: "Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: 'Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice?'"
Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.

Sherezade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, e terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O Império dos Sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, Sherezade o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. 

E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes. Fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, eu te amo não quer dizer mais nada". É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma". 

Tênis é um jogo feroz. O objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: O outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, é justamente para aí que ele vai dirigir sua cortada. Palavra muito sugestiva - que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

Frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra. O erro de um, no frescobol, é um acidente lamentável que não deveria ter acontecido. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho prá lá, sonho prá cá.... Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão.. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. 

O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres ao vento. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha, para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal!

Nosso Natal esse ano começou cedo... Dia 12 começamos as comemorações na igreja. Cada um trouxe o seu presente para Jesus. Alguns cantaram, outros dançaram. Os jovens esbanjaram talento numa peça de teatro. Um belo coral com as crianças me fez lembrar o coro dos anjos. No fim de tudo, muita fraternidade em torno de uma mesa bem garnida de doces e amigos. Uma amiga me ensinou a fazer um bolo francês típico do Natal, se chama "bûche de Noël".
No dia 14, festejamos o Natal com dois casais amigos nossos. Lareira acesa. Crianças ora brincando no tapete ora duelando pra ver quem sentaria no colo de Bernardo. Culinária francesa de primeira. Até presentes! Ganhamos um jogo de tabuleiro.
Domingo, dia 19, fomos pra casa de uma amiga, onde almoçamos com ela e seu noivo. Um prato típico da Reunião.
Hoje é dia 24. Estamos em casa. Natal a dois por opção. Amanhã, almoço com dois casais amigos da igreja. Deus é bom! O desejo é que o Natal dure o ano todo. Digo, o essencial do Natal. Jesus no centro. A alegria no peito. Bons amigos com quem compartilhar a mesa.




Feliz Natal a todos! Que o Senhor os abençoe!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Vigília

Ele me ilude. Finge perdoar minha traição. Se aproxima, me faz um carinho. Um bocejo parece selar a aliança. Em seguida ele parte, o orgulho ferido, dizendo: "Por que não me procurou mais cedo?" A luz continua acesa. Vigília. Eu só queria dormir, mas o sono tá de mal de mim. 

domingo, 5 de dezembro de 2010

Machado de Assis

Poeta, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, crítico literário. Pai do realismo brasileiro, fundador da Academia Brasileira de Letras. Bruxo do Cosme Velho para Drummond. Cupido para dois amantes da sua prosa irônica e aguda. 
Desconhecíamos sua poesia. Imaginem a nossa surpresa ao esbarramos nessas linhas? 


Livros e flores


Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?


Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?





Irônico...

Primeiro "encontro"


Aula de redação. Inútil e tediosa. Ele está sentado na carteira vizinha, ambos na primeira fila. A proximidade do professor não foi o bastante para intimidar Pedro. Foi assim que ele iniciou nosso primeiro diálogo. 

"Pedro - Lá fora, as meninas estão conversando em voz alta. Sabe por que eu não posso me juntar a elas? Porque eu já saí do anonimato nessa aula. Se fosse Kenji, eu já estaria lá. Antes, o professor nem sabia meu nome; agora sabe o sobrenome, a escola literária preferida e que vou fazer letras. Lutei por ser notado. Involuntariamente, é verdade. Agora tenho saudade dos primeiros dias. E toda sua liberdade.
Cecília – Essa aula faz doer teu coração também?
Pedro – Não. A aula é enfadonha. O coração é só um músculo que bombeia sangue.
Cecília – Chato2. Me admira você, um amante da literatura, um cara sensível e observador não entender uma metáfora tão simples.
Pedro – Que comentário destruidor. Eu poderia cair morto depois de um tiro como esse. Você é sem-dó². Pô, eu estava brincando...
Cecília – Qual é a tua escola literária preferida?
Pedro – Realismo. No Brasil, começou em 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis. Tem a ver comigo. Olho para as pessoas e vejo... as pessoas. Só isso. Não são mais do que pessoas. Reconheço que, às vezes, por descuido, mostro traços de outras escolas. Na essência, é Realismo.
Cecília – Eu também, porém, por causa de Capitu. Ela é fascinante, uma personagem muito bem feita (talvez a melhor). Analisá-la é intrigante, mas gosto dela, a entendo, a admiro e, algumas vezes, me identifico com ela.
Pedro – Estou perplexo. Deveria até ter usado um ponto de exclamação. - !!! um monte. É uma das melhores, mesmo. Se você tem um pouco dela, tem muito de mistério, serenidade, segurança, decisão e beleza. Não conheço você tão bem quanto conheço Capitu. Só o que vi de você foi o último dos adjetivos que enumerei. Pronto. Fim da aula."

Não é o que eu chamaria de um primeiro encontro convencional. Esse início está mais para "pedras e livros". Quem poderia prever o romance que estava por vir e todas as pétalas que guardaria "Dom Casmurro"?

Flores e livros

Agora ganhou comunidade no orkut e no facebook. Se você nos visitou e gostou do que leu, não hesite a deixar seu recado, se inscrever para "seguir" o blog e/ou se inscrever nas comunidades:

http://www.orkut.com/Main#Community?cmm=108946399
http://www.facebook.com/home.php?sk=group_112209132183367&ap=1

Boa leitura!

P.S. "Escrever é lançar uma pedra no poço fundo." (Clarice Lispector)

Primeiro beijo

Eu lembro a primeira vez em que percorri aqueles lábios. Tímidos, contraídos, pálidos. Ela ainda era uma menina e não sabia. Estava em seu quarto-refúgio. Cor-de-rosa. Um urso deitado na cama. Alguns livros sobre a mesa. Porta fechada. Tocou-me delicadamente. Eu permaneci imóvel, entre suas mãos pequeninas. Ela colocou-se em frente do espelho. Sorriu de um ar sapeca. E com certa hesitação, abriu bem os olhos, esticou os lábios e me fez um carinho. Lábio superior, lábio inferior. Percorri um a um, deixando minha marca. Um colorido rosa choque naquele rosto de boneca.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Flores e água

Se concordarmos que beleza é uma grandeza circunstancial, logo, concluimos que não se pode esperar que estas linhas vislumbrem o tema o bastante para chegarmos a uma conclusão definitiva. Sejamos módicos.
Uma flor é coisa frágil, às vezes cheirosa, leve e tem sua imagem vinculada a pessoas enamoradas. Água é transparente, maleável e abundante. Três adjetivos que, quando juntos, conferem imagens lindas. Imagine, por exemplo, um riachinho. Não um rio enorme, que arrasta qualquer um que tentar acariciá-lo, mas um riachinho, pequeno, agitado, jovial, fazendo um barulhinho contínuo e doce, refletindo parte da luz do sol, deixando entrar e sair o resto dela, que ilumina pedrinhas redondas no fundo. A imagen é, inegavelmente, linda.
Agora, olhe para uma rosa amarela. A luz do sol, a mesma que brinca com o riacho, é ainda mais dourada nas pétalas da rosa. O amarelo do sol soma forças com o da flor. São aliados. Os espinhos carregam o mesmo gênero de beleza que deslumbra quem está diante de uma fortaleza de pedra, ou de uma espada, daquelas orientais, reluzentes. Trata-se da beleza que votamos ao que é forte e fere. Devo lembrar que, se algo é belo, nós, os donos dos olhos, é que lhe aplicamos essa dádiva. Ao lado do espírito guerreiro dos espinhos, temos a fragilidade silenciosa das pétalas. Um peteleco e lá se vai aflor. Seria maldade, decerto. A fragilidade também é coisa bela. Belíssima, às vezes.
Agora, imagine aquele riacho cercado de flores. E aquela rosa sob uma chuvinha fina e o mesmo sol. O que, aliás, daria um arco-íris. Mais importante do que a dúvida – o que é mais bonito? – é somar belezas. Somar as mais distintas belezas possíveis.

Pedro Bernardo - maio de 2005

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"Jovem, aproveite a sua mocidade" Eclesiastes 11:9

Primavera. Mamãe Árvore, após um longo inverno de gestação, deu enfim à luz as primeiras folhas da estação. Bem alimentadas com a seiva vinda de longe, bem iluminadas e aquecidas pelo fiel sol de abril, as folhinhas cresceram saudáveis e numerosas. Elas sorriam verdes e satisfeitas, cantando e dançando com seu melhor amigo, Vento. Mamãe Árvore, sempre hospitaleira, recebeu as primeiras visitas. Uma delas, um certo Pássaro, de plumas negras e amarelas, se instalou definitivamente e fez de Árvore seu ninho. As folhinhas ficaram todas entusiasmadas com aquele ser. Belo, imponente, independente e

- livre... Mamãe, eu queria ser como Pássaro! - disse Folha, a primogênita.
- Por que, filha ?
- Eu queria voar. Ir pra longe, conhecer novas terras.
- Sinto muito, mas isso é impossível pra você.
- Quer dizer que eu estou fadada a passar a minha vida inteira presa a você? Isso não é justo!

Mamãe Árvore, vislumbrando o momento em que suas filhas, uma a uma, partiriam, calou-se. O silêncio pesado, de quem sofre calado.
Folha, durante a adolescência, no auge da rebeldia, aliou-se com algumas de suas irmãs numa tentativa de fuga em massa. Esperaram um momento em que Galho estava distraído, seguraram o fôlego, contaram até três e se prepararam para saltar todas juntas. O abismo diante delas, o desconhecido. Mas nada aconteceu. Elas se esticaram o máximo que puderam, mas impossível escapar de Galho.
O outono chegou. Folha amadureceu, ganhou cores cor de fogo. As brincadeiras com Vento ficaram mais intensas. E às vezes ela tinha até a impressão de voar. Certo dia Folha viu uma de suas amigas partir voando, colorida, dançando com Vento. Ela decidiu tentar saltar novamente, sozinha. Sentia que dessa vez algo estava diferente, que Galho não a prendia mais como antes. Fechou os olhos. Abriu os porinhos. E em alguns instantes ela estava girando e girando no ar. Abriu os olhos e se viu lado a lado com Pássaro, as asas abertas. Voavam. Folha não cabia em si de tanta alegria.
Horas depois ela foi perdendo altitude. O chão cada vez mais perto. Estava sozinha agora. Deitou. Estava perdendo as forças. Entendeu que estava morrendo. Ela estava feliz.
Folha não foi Pássaro, mas seu sonho fertilizou a terra.
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