Pra encerrar a série de redações nada parciais de 2005

Tema: « Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com um país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... »


A Peste


Se planejar fosse o bastante, a felicidade seria uma doença epidêmica, incontrolável e, já há muito tempo, moléstia incurável e fatal de cada cidadão da Terra. Padeceríamos todos da idéia absurda de que não há problema algum no mundo.

Primeiro, o infectado faria planos mirabolantes para solver cada dor de cabeça, cada calo, cada beijo não dado, sem fazer nada. Iria pensar no analgésico, em tirar o sapato apertado, em agarrar a moça, mas não moveria um dedo sequer. Ficaria a supor como seria bom ver-se livre dos males. E a conjetura, certa hora, ser-lhe-ia suficiente. Nesse segundo estágio da doença, ele passa a deleitar-se com suas soluções, umas óbvias, como tirar o sapato, outras hipotéticas, como agarrar a moça. Apesar de continuar com o calo doendo e sem o beijo, ele se sente feliz. Suas soluções lhe proporcionam toda a satisfação de que ele precisa, embora tenham permanecido em sua mente, onde nasceram.

No paroxismo da patologia, que anuncia o estágio final, todos veriam o estado decadente e lastimável de alguém que está tão ocupado em engendrar pensamentos que abandonou a parte física de sua vida. Alguém que, ao se deparar com a morte certa e iminente, imagina inventar certo elixir da vida, como o qual solucionaria a última das tristezas a ser tragada por algo que se diz vivo.

Assim, depois de solucionar, talvez, a fome no mundo, em um certo momento altruísta de sua existência, morreria sorrindo e quieto, o homem criativo e de braços cruzados. Morreria de felicidade.


Pedro Bernardo

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