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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Estratégia

Méditerranée é um formidável jogo de estratégia. Quando estávamos na Suíça há alguns meses, na casa de Jonathan MEYLAN, nosso caríssimo amigo que nos iniciou a Linux, nós jogamos nossa primeira partida desse jogo de comércio e conquista. A primeira batalha da partida foi um ousado desafio de Érica, grávida a essa época, contra seu marido.
A competição nesse jogo é tão aguçada que os cônjuges são os primeiros alvos.
Depois desses dias inesquecíveis na Suíça, nós voltamos para a França falando desse jogo. Há algumas semanas, Éric, um dos pastores da nossa igreja, nos deu essa caixa mágica, comprada de segunda mão, objeto raro, item de colecionador, num Natal antecipado. Na noite do presente, nós não tivemos tempo para uma partida, mas poucos dias passaram antes que as primeiras galeras se lançassem ao mar em busca de aventuras nos nossos 27 m².
O vídeo abaixo dá alguns indícios das emoções vividas durante uma partida de Méditerranée. Ele foi gravado ontem, na casa de nossos amigos indianos da igreja, os BONIFACE.


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Relacionamento

Rubem Alves

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos (relacionamentos) são de dois tipos: há os casamentos do tipo Tênis e há os casamentos do tipo Frescobol.

Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam mal. Os casamentos do tipo Frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa. Explico-me.

Para começar, uma afirmação de Nietzche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele: "Ao pensar sobre a possibilidade do casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: 'Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até sua velhice?'"
Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.

Sherezade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, e terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O Império dos Sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, Sherezade o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra - é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. 

E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes. Fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, eu te amo não quer dizer mais nada". É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma". 

Tênis é um jogo feroz. O objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: O outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, é justamente para aí que ele vai dirigir sua cortada. Palavra muito sugestiva - que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

Frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra. O erro de um, no frescobol, é um acidente lamentável que não deveria ter acontecido. E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...

A bola: são nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho prá lá, sonho prá cá.... Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão.. O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. 

O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres ao vento. Bola vai, bola vem - cresce o amor... Ninguém ganha, para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Feliz Natal!

Nosso Natal esse ano começou cedo... Dia 12 começamos as comemorações na igreja. Cada um trouxe o seu presente para Jesus. Alguns cantaram, outros dançaram. Os jovens esbanjaram talento numa peça de teatro. Um belo coral com as crianças me fez lembrar o coro dos anjos. No fim de tudo, muita fraternidade em torno de uma mesa bem garnida de doces e amigos. Uma amiga me ensinou a fazer um bolo francês típico do Natal, se chama "bûche de Noël".
No dia 14, festejamos o Natal com dois casais amigos nossos. Lareira acesa. Crianças ora brincando no tapete ora duelando pra ver quem sentaria no colo de Bernardo. Culinária francesa de primeira. Até presentes! Ganhamos um jogo de tabuleiro.
Domingo, dia 19, fomos pra casa de uma amiga, onde almoçamos com ela e seu noivo. Um prato típico da Reunião.
Hoje é dia 24. Estamos em casa. Natal a dois por opção. Amanhã, almoço com dois casais amigos da igreja. Deus é bom! O desejo é que o Natal dure o ano todo. Digo, o essencial do Natal. Jesus no centro. A alegria no peito. Bons amigos com quem compartilhar a mesa.




Feliz Natal a todos! Que o Senhor os abençoe!

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Vigília

Ele me ilude. Finge perdoar minha traição. Se aproxima, me faz um carinho. Um bocejo parece selar a aliança. Em seguida ele parte, o orgulho ferido, dizendo: "Por que não me procurou mais cedo?" A luz continua acesa. Vigília. Eu só queria dormir, mas o sono tá de mal de mim. 

domingo, 5 de dezembro de 2010

Machado de Assis

Poeta, cronista, dramaturgo, contista, folhetinista, jornalista, crítico literário. Pai do realismo brasileiro, fundador da Academia Brasileira de Letras. Bruxo do Cosme Velho para Drummond. Cupido para dois amantes da sua prosa irônica e aguda. 
Desconhecíamos sua poesia. Imaginem a nossa surpresa ao esbarramos nessas linhas? 


Livros e flores


Teus olhos são meus livros.
Que livro há aí melhor,
Em que melhor se leia
A página do amor?


Flores me são teus lábios.
Onde há mais bela flor,
Em que melhor se beba
O bálsamo do amor?





Irônico...

Primeiro "encontro"


Aula de redação. Inútil e tediosa. Ele está sentado na carteira vizinha, ambos na primeira fila. A proximidade do professor não foi o bastante para intimidar Pedro. Foi assim que ele iniciou nosso primeiro diálogo. 

"Pedro - Lá fora, as meninas estão conversando em voz alta. Sabe por que eu não posso me juntar a elas? Porque eu já saí do anonimato nessa aula. Se fosse Kenji, eu já estaria lá. Antes, o professor nem sabia meu nome; agora sabe o sobrenome, a escola literária preferida e que vou fazer letras. Lutei por ser notado. Involuntariamente, é verdade. Agora tenho saudade dos primeiros dias. E toda sua liberdade.
Cecília – Essa aula faz doer teu coração também?
Pedro – Não. A aula é enfadonha. O coração é só um músculo que bombeia sangue.
Cecília – Chato2. Me admira você, um amante da literatura, um cara sensível e observador não entender uma metáfora tão simples.
Pedro – Que comentário destruidor. Eu poderia cair morto depois de um tiro como esse. Você é sem-dó². Pô, eu estava brincando...
Cecília – Qual é a tua escola literária preferida?
Pedro – Realismo. No Brasil, começou em 1881, com Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis. Tem a ver comigo. Olho para as pessoas e vejo... as pessoas. Só isso. Não são mais do que pessoas. Reconheço que, às vezes, por descuido, mostro traços de outras escolas. Na essência, é Realismo.
Cecília – Eu também, porém, por causa de Capitu. Ela é fascinante, uma personagem muito bem feita (talvez a melhor). Analisá-la é intrigante, mas gosto dela, a entendo, a admiro e, algumas vezes, me identifico com ela.
Pedro – Estou perplexo. Deveria até ter usado um ponto de exclamação. - !!! um monte. É uma das melhores, mesmo. Se você tem um pouco dela, tem muito de mistério, serenidade, segurança, decisão e beleza. Não conheço você tão bem quanto conheço Capitu. Só o que vi de você foi o último dos adjetivos que enumerei. Pronto. Fim da aula."

Não é o que eu chamaria de um primeiro encontro convencional. Esse início está mais para "pedras e livros". Quem poderia prever o romance que estava por vir e todas as pétalas que guardaria "Dom Casmurro"?

Flores e livros

Agora ganhou comunidade no orkut e no facebook. Se você nos visitou e gostou do que leu, não hesite a deixar seu recado, se inscrever para "seguir" o blog e/ou se inscrever nas comunidades:

http://www.orkut.com/Main#Community?cmm=108946399
http://www.facebook.com/home.php?sk=group_112209132183367&ap=1

Boa leitura!

P.S. "Escrever é lançar uma pedra no poço fundo." (Clarice Lispector)

Primeiro beijo

Eu lembro a primeira vez em que percorri aqueles lábios. Tímidos, contraídos, pálidos. Ela ainda era uma menina e não sabia. Estava em seu quarto-refúgio. Cor-de-rosa. Um urso deitado na cama. Alguns livros sobre a mesa. Porta fechada. Tocou-me delicadamente. Eu permaneci imóvel, entre suas mãos pequeninas. Ela colocou-se em frente do espelho. Sorriu de um ar sapeca. E com certa hesitação, abriu bem os olhos, esticou os lábios e me fez um carinho. Lábio superior, lábio inferior. Percorri um a um, deixando minha marca. Um colorido rosa choque naquele rosto de boneca.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Flores e água

Se concordarmos que beleza é uma grandeza circunstancial, logo, concluimos que não se pode esperar que estas linhas vislumbrem o tema o bastante para chegarmos a uma conclusão definitiva. Sejamos módicos.
Uma flor é coisa frágil, às vezes cheirosa, leve e tem sua imagem vinculada a pessoas enamoradas. Água é transparente, maleável e abundante. Três adjetivos que, quando juntos, conferem imagens lindas. Imagine, por exemplo, um riachinho. Não um rio enorme, que arrasta qualquer um que tentar acariciá-lo, mas um riachinho, pequeno, agitado, jovial, fazendo um barulhinho contínuo e doce, refletindo parte da luz do sol, deixando entrar e sair o resto dela, que ilumina pedrinhas redondas no fundo. A imagen é, inegavelmente, linda.
Agora, olhe para uma rosa amarela. A luz do sol, a mesma que brinca com o riacho, é ainda mais dourada nas pétalas da rosa. O amarelo do sol soma forças com o da flor. São aliados. Os espinhos carregam o mesmo gênero de beleza que deslumbra quem está diante de uma fortaleza de pedra, ou de uma espada, daquelas orientais, reluzentes. Trata-se da beleza que votamos ao que é forte e fere. Devo lembrar que, se algo é belo, nós, os donos dos olhos, é que lhe aplicamos essa dádiva. Ao lado do espírito guerreiro dos espinhos, temos a fragilidade silenciosa das pétalas. Um peteleco e lá se vai aflor. Seria maldade, decerto. A fragilidade também é coisa bela. Belíssima, às vezes.
Agora, imagine aquele riacho cercado de flores. E aquela rosa sob uma chuvinha fina e o mesmo sol. O que, aliás, daria um arco-íris. Mais importante do que a dúvida – o que é mais bonito? – é somar belezas. Somar as mais distintas belezas possíveis.

Pedro Bernardo - maio de 2005

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

"Jovem, aproveite a sua mocidade" Eclesiastes 11:9

Primavera. Mamãe Árvore, após um longo inverno de gestação, deu enfim à luz as primeiras folhas da estação. Bem alimentadas com a seiva vinda de longe, bem iluminadas e aquecidas pelo fiel sol de abril, as folhinhas cresceram saudáveis e numerosas. Elas sorriam verdes e satisfeitas, cantando e dançando com seu melhor amigo, Vento. Mamãe Árvore, sempre hospitaleira, recebeu as primeiras visitas. Uma delas, um certo Pássaro, de plumas negras e amarelas, se instalou definitivamente e fez de Árvore seu ninho. As folhinhas ficaram todas entusiasmadas com aquele ser. Belo, imponente, independente e

- livre... Mamãe, eu queria ser como Pássaro! - disse Folha, a primogênita.
- Por que, filha ?
- Eu queria voar. Ir pra longe, conhecer novas terras.
- Sinto muito, mas isso é impossível pra você.
- Quer dizer que eu estou fadada a passar a minha vida inteira presa a você? Isso não é justo!

Mamãe Árvore, vislumbrando o momento em que suas filhas, uma a uma, partiriam, calou-se. O silêncio pesado, de quem sofre calado.
Folha, durante a adolescência, no auge da rebeldia, aliou-se com algumas de suas irmãs numa tentativa de fuga em massa. Esperaram um momento em que Galho estava distraído, seguraram o fôlego, contaram até três e se prepararam para saltar todas juntas. O abismo diante delas, o desconhecido. Mas nada aconteceu. Elas se esticaram o máximo que puderam, mas impossível escapar de Galho.
O outono chegou. Folha amadureceu, ganhou cores cor de fogo. As brincadeiras com Vento ficaram mais intensas. E às vezes ela tinha até a impressão de voar. Certo dia Folha viu uma de suas amigas partir voando, colorida, dançando com Vento. Ela decidiu tentar saltar novamente, sozinha. Sentia que dessa vez algo estava diferente, que Galho não a prendia mais como antes. Fechou os olhos. Abriu os porinhos. E em alguns instantes ela estava girando e girando no ar. Abriu os olhos e se viu lado a lado com Pássaro, as asas abertas. Voavam. Folha não cabia em si de tanta alegria.
Horas depois ela foi perdendo altitude. O chão cada vez mais perto. Estava sozinha agora. Deitou. Estava perdendo as forças. Entendeu que estava morrendo. Ela estava feliz.
Folha não foi Pássaro, mas seu sonho fertilizou a terra.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Maná

Após um ano de trabalho na Pizza Hut de Clermont-Ferrand e para comemorar o fim da licenciatura, decidimos fazer uma grande viagem de férias. Dia 12 de julho partimos de trêm para Lyon. Onde passeamos durante a tarde enquanto esperávamos a hora do ônibus que nos levaria após 11 horas de estrada à Nuremberg, na Alemanha. De lá, após uma volta na cidade, seguimos para Leipzig, onde passamos uma agradabilíssima semana com nossa amiga Christiane e seu esposo. Na madrugada do dia 19 estávamos num banquinho em Zurique, esperando o trem que nos levaria a Tramelan, onde passamos duas semanas. Após três semanas de puras férias, chegou a hora de ir para a Alsácia trabalhar na colheita de frutas durante um mês. Eis o nosso itinerário:


Como Deus alimentou os israelitas dia após dia no deserto, Ele nos alimenta segundo nossas necessidades. Nesse último verão nós fomos colhendo e saboreando uma a uma as bênçãos do Senhor. E elas foram numerosas. Por isso nomeamos essa viagem de "Maná".

"Bom é ter esperança, e aguardar em silêncio a salvação do SENHOR" (Lamentações 3:26)

Eu queria ser aquela árvore que viu suas folhas cair e não chorou. Aquela árvore que o frio do inverno não abalou. Suas raízes fortes e nodulosas longe vão buscar o alimento que sustentará cada um de seus galhos. Seu tronco robusto resiste às intempéries. Essa árvore sabe viver. Ela aceitou o ninho vazio. O silêncio do inverno. E vestiu com majestade o manto branco de dezembro. Meses depois, ela viu resignada o boneco de neve partir. Na primavera, ela acolheu o filho pródigo. Deu sombra ao homem solitário. Fruto ao moleque acinzentado. Sua flor ornou os cabelos da moça. O esquilo fez dela seu refúgio. A árvore aceitou com um sorriso nos galhos, com a consciência de que nada daquilo era definitivo.
De onde ela tira a sua força? Como ela aprendeu quem ela é e o seu papel no sistema? Como ela aprendeu a aceitar com tanta doçura o seu destino? Com quem ela aprendeu a dar sem esperar algo em troca? Comovo-me. Eu queria ser aquela árvore que soube esperar. Os pés firmes ao chão. Os braços sempre abertos. A cabeça alta, perto do céu.

domingo, 14 de novembro de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

Guten Tag!

Reparem no mapa ao lado... Estamos na Alemanha! Estamos colecionando histórias para compartilhar com vocês. E em dois dias já temos um monte. Em breve crônicas e muitas fotos, afinal esse é um blog de viagens ;)

Tchuss!

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pudor


Duas menininhas de 5 anos brincam no jardim. Flores. Bonecas. Nuvens. Vestidos. Brincam e transpiram sob o sol.

- Você está com calor?
- Estou!
- Eu estou com tanto calor que chega dá vontade de tirar o vestido...
- Não pode! Você vai mostrar seus seios!

Vou perguntar pra Freud


Não entendo o que anda contecendo, mas as crianças andam me perseguindo com perguntas difíceis sobre "o que" eu sou. Outro dia, num banheiro público, encontro mãe e filha à beira da pia se preparando para lavar as mãos. Vendo que eu estava com pressa e sabendo que eu seria com certeza mais rápida que as duas, a mulher disse que eu poderia passar primeiro. A menina, que devia ter uns 6 anos cheios de curiosidade e nenhuma hipocrisia, me lançou um olhar inquisidor e perguntou:

- Você é uma jovem mamãe?
- Não. - Respondo com um sorriso nos lábios.
- Você é uma criança?
- Não. - O sorriso cada vez maior, mas ainda monossilábica de surpresa.

Silêncio. Os olhos da menina pousados em mim, sobrancelhas franzidas. Lavei-me as mãos. O que dizer? Antes de sair, disse rapidamente:

- Sou adulta, tenho 22 anos. Tchau!

Não entendo. Umas acham que tenho a idade da mãe delas, outras, a idade da irmã. Em alguns segundos vou de jovem mamãe pra criança, sob o olhar de uma desconhecida no banheiro. Ai, ai, essas menininhas vão me deixar em crise de identidade!
Sou uma adulta?
Ou será que sou uma criança?


E Freud, será que ele seria capaz de explicar?

quarta-feira, 7 de julho de 2010

O impasse continua



Domingo dia 27 de junho a igreja fez um culto numa casa de campo. As crianças tiveram o estimado momento do club écolo, do qual sou uma das responsáveis. Enquanto os adultos louvavam o Senhor ao ar livre, com uma linda vista para a montanha do Sancy, as crianças O adoravam com toda sua ingenuidade e pureza através de um passeio na floresta. Aline é uma mocinha de 4 aninhos, muitas palavras e pouca resistência a caminhadas. Eu então fui a privilegiada que a carregou nas costas. Assim que coloco a pequena nas costas ela exclama:



-Wow, como você é pequena! Você é uma criança?

- Não, Aline, eu sou uma adulta. - Respondi segurando o riso de surpresa e indignação.

Quando eu me apresento, dou um jeito de mostrar a aliança na mão esquerda, passo a mão no rosto, repouso-a no queixo. Sempre dá certo! Ninguém mais acha que tenho 17 anos. Na verdade ficam surpresos ao saber que "só " tenho 22 e "já" sou casada. Mas a pequena Aline não foi perspicaz o bastante pra me poupar de uma pergunta constrangedora.

Quantos anos Cecília tem?

Algumas manhãs saio de casa cedo de bicicleta pra encontrar duas adoráveis menininhas e arrumá-las para a escola. Lise tem 8 anos e Anaïs tem 5. Um dia desses pergunto quantos anos elas acham que eu tenho. Anaïs é a primeira a responder, sem hesitar :




- 32!!





Lise, a mais velha, vai logo dizendo que a irmã está errada; faz cara de menina sabida, pensa um pouco...




- Humm... você deve ter... 34!!





- Vocês passaram longe, meninas, só tenho 22 aninhos.
E Anaïs responde com surpresa e espontaneidade:
- Sério? Nem sabia que essa idade existia!
- É só contar, né, Anaïs!! - replica a irmã mais velha sem piedade.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Aqui estão as tão esperadas fotos da nossa lua-de-mel. Nós passamos 5 dias em lindas praias pernambucanas logo depois do casamento em agosto de 2008, e logo em seguida, seguimos curso para a França esquecendo uma boa parte das fotos no Brasil, com a família. Mais de vinte meses depois, com a visita dos pais de Cecília, recebemos num pendrive pouco mais de 500 fotos daqueles cinco dias. Aqui está nosso seleção.

De Lua de Mel


De Lua de Mel

De Lua de Mel

De Lua de Mel

De Lua de Mel

De Lua de Mel

terça-feira, 20 de abril de 2010

Boas notícias

Depois de muitos testes realizados pelas companhias aéreas (que perdiam 50 milhões de euros por dia com os aviões no chão), o governo francês liberou o espaço aéreo da França, já que os testes indicam que a concentração de cinzas na atmosfera não é forte o bastante para danificar os aviões.

Os pais de Cecília decolam amanhã às 10 h 30 e chegam em Recife meia noite e quinze, horários locais, depois de uma escala em São Paulo.

Obrigados pelas orações. Deus ouviu tudo.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Atraso da chegada dos pais de Cecília ao Brasil

Um vulcão entrou em erupção na Islândia, encheu os céus do norte da Europa de cinzas compostas de partículas de vidro, areia, e sei lá mais o que, o que torna o tráfego aéreo impossível. Os aviões estão paralisados.

O governo cancelou todos os vôos, e a companhia aérea só fez garantir que Auricéia e Cabral serão reembolsados ou colocados em outro vôo. Eles só não disseram ainda qual vôo, nem quando ele parte. Nem nada além disso...

Estamos todos preocupados. Menos Cecília, que vai passar mais alguns dias com a mamãe.

Vamos orar pela situação.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Aula de F.L.E

Francês língua estrangeira. F.L.E. É isso o que estudamos na faculdade. O curso forma professores de francês para estrangeiros. Temos um exercício pra fazer e gostaria que vocês nos ajudassem. Rápido, pois é pra amanhã à tarde :D Precisamos dizer 10 coisas boas do Brasil. Peço a cada um a escrever sua lista nos comentários para me ajudar a preparar a minha, s'il vous plaît...

Escreverei em breve, no momento ando muito ocupada.

Beijo!

domingo, 14 de março de 2010

Igreja


Hoje foi dia de assembléia geral na pequena igreja batista de Clermont-Ferrand. Entre outras coisas, nós votamos por alguns projetos a longo prazo. Um missionário no sul da região, um seminarista em Barcelona, um novo templo, um projeto missionário educativo.

Eu votei OUI para tudo.

E eu fui votado também. A igreja me escolheu para entrar no seu conselho. Que Deus me ajude...

quinta-feira, 11 de março de 2010

Los Hermanos não é Ana Júlia

Estive revisitando músicas legais de quando eu vivia no Brasil e decidi relançar esse videozinho que eu fiz pra Cecília, ainda no tempo em que eu usava Windows.
A trilha sonora é pra lembrar que Los Hermanos não se limita a "Ana Júlia" :P

quarta-feira, 10 de março de 2010

Nigéria: 500 crentes mortos em 3 horas

Na noite da segunda feira, 8 de março de 2010, na região central da Nigéria, mais de 500 cristãos foram massacrados los vilarejos de Dogo Nahawa, Zot e Rastat. Segundo o presidente da Aliança Cristã da região, Andersen Bok, uma multidão chegou gritando "Allah Akbar" para queimas as casas e matar todo mundo, inclusive mulheres e crianças. Os cristãos chamaram o exército algeriano que só chegou quando os muçulmanos já tinham partido.

Vamos orar pelos nossos irmãos nigerianos.

terça-feira, 9 de março de 2010

Tudo é relativo, já dizia Einsten

O casal recebe um amigo em casa para o jantar. Bem alimentados. Amigo interessante. Casal feliz. Conversa agradável, que em determinado momento se envereda por trilhas filosóficas do tema beleza, atingindo um caminho, um atalho mais precisamente, com uma dimensão toda pragmática e direta:

A - Qual a garota mais bonita da igreja pra você, Amigo?
B - Mas amor, isso é pessoal, é relativo...
A - Eu sei, é por isso mesmo que pergunto. Se não fosse relativo, eu não precisaria perguntar. Simplesmente diria a ele quem é a garota mais bonita.
B - ! Wow! You got it. Viu, amigo, por que me apaixonei?

O amigo simplesmente aproveita a distração do casal, para se desviar e não dar resposta.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Em breve!

Esse fim de semana nos reunimos com um grupo de jovens cristãos numa casa de campo para orar pelos cristãos perseguidos no mundo. Foram dois dias de muitas bênçãos, comunhão fraterna e contato com o Pai.
Em breve contaremos mais, colocaremos fotos e vídeos.

Aguardem.


O garoto que casou com a mãe

Essa semana encontrei no msn um amigo de infância com quem não falava há muito tempo. Resolvi saber como ele estava, por onde andava, etc. Alguns dos que acompanham esse blog o conhecem e vão estar surpresos ao saber as novidades.

- Oi, menino, tudo bem? E então, já casou?
- Sim!
- E cadê as fotos? Quero ver! :)
- Fotos?? Oxe, eu casei com a minha mãe!!!!

Pausa. Eu reflito. É bem verdade que ele sempre foi muito apegado à mãe. Por sinal, ela sempre foi a "tia" preferida pelos amigos que compunham nosso grupinho. Perguntei-me "será que isso quer dizer que ele se decepcionou com a namorada e decidiu nunca casar"? "Será que é piada"? Ele sempre foi engraçadinho mesmo...

- Hã? Como assim?

E então ele me explicou que a noiva dele estava na Espanha e ele no Brasil no momento do casamento. Ele havia encontrado a moça em 2008 durante a viagem de intercâmbio na Alemanha. Eles namoraram, viajaram juntos pra terra da moça, Espanha, pra terra do rapaz, Brasil, até que por questões burocráticas, práticas e chatas, tiveram que se separar e cada um foi pro seu canto. Esperar o outro e dar um jeito de ficarem juntos. A jovem, então, assinou uma procuração no nome da sogra pra que esta possa se casar com o filho. E assim o moleque mais bagunceiro da turma, que conversava durante as aulas, falava palavrão e aperreava as meninas, casou com a mãe. Depois Marcus partiu pra Espanha, onde vive com sua esposa, que não é a mãe dele!

Felicidades ao casal!

sexta-feira, 5 de março de 2010

"Cada obra pertence ao seu tempo"

Aos 14 anos, na oitava série do colegial, escrevi um texto para uma das matérias da escola. A professora, Andréa Ramos, gostou tanto que me pediu autorização pra trabalhá-lo em sala com a turma. Encheu-me de satisfação e medo. Mas aceitei, com a condição de que ela revelasse a autoria apenas após ouvir os comentários de todos. Foram positivos, ufa... Minha primeira experiência como escritora lida. Um orgulho!
Aos 17 anos, mostrei-o pra Pedro e dei minha opinião de quase quase adulta...


As utopias da adolescência

A adolescência é a hora do tudo ou nada. É a hora de você se conhecer melhor e conhecer o mundo a sua volta também. É a hora de você saber do que gosta ou não, quais são seus princípios e valores, e onde se quer chegar. Depois é hora de ir, com as próprias pernas, traçando o seu caminho.
O mundo é hipócrita e injusto, você quer mudá-lo, moldá-lo à sua maneira e não sabe por onde começar. Como fazê-lo? Sua força no é o suficiente para se fazer impor. Desesperado, você grita, mas seu grito não é suficientemente alto para se fazer escutar. Será que eles não lhe entendem ou é puro fingimento? ... Talvez eles também estejam gritando por ajuda.
A sociedade estabeleceu regras e limites, mas você não os aceita. Isso não afirma que você não quer aceitá-los, apenas nega que eles fazem parte da sua realidade, a realidade que você quer, que você criou ou quer criar.
Você constrói o seu mundo só para si, ele é seu. Nele deposita ideais de amor, solidariedade, amizade, comunhão e todas aquelas que não foram distorcidas pelo mundo lá fora. Essas idéias ainda não lhe desiludiram, não lhe decepcionaram.
Eles dizem que você é jovem e que quando virar um deles, verá que a vida não é assim. Que o que quer é utopia, abstrato e impossível. chamam-lhe de aborrecente, louco e imaturo. Dizem que o que você quer é chamar atenção e que só fala abobrinha. Dizem que você é um egoísta e só pensa em si mesmo, que só pensa em coisas fúteis.
Obviamente você quer passear, namorar, se divertir. Mas não é apenas isso; você quer mais. Você espera mais do mundo, mas só espera e pouco recebe. O que ele tem pra lhe dar são coisas que você não quer aceitar.
Você não quer só passear, quer olhar e sentir com a alma o ambiente e as pessoas que lhe cercam.
Você não quer só namorar, quer amar e viver uma linda história de amor como naqueles contos de fadas que você tem vergonha de admitir em público que sonha.
Você não quer só se divertir, quer ser feliz.
Você sabe que da mesma maneira que o adolescente tem vergonha de fazer, sentir e acreditar em coisas de quando era criança, quando se torna um adulto, também tem vergonha de agor como um adolescente. E tem medo que esse dia chegue da mesma forma que sua infância se foi.
Você quer ser criança de novo pra se sentir ainda mais alheio ao mundo. Mas gosta da sua adolescência e não quer perdê-la. Você até quer ser adulto, ser totalmente independente, ter a sua tão sonhada liberdade.
Mas você tem medo de se deixar corromper, de permitir a morte dos seus sonhos. Até mesmo porque os adultos são teoricamente livres, pois estão presos, acorrentados ao mundo. E não é essa a liberdade que você quer. Você tem medo de ser como eles, de se tornar também um hipócrita, um acomodado a mercê do acaso e que não faz nenhuma diferença. Tem medo que seus sentimentos morram e que você não consiga fazer o que tanto deseja.
Você, então, cria muralhas ao seu redor, mas aos poucos, a hipocrisia, a injustiça, a crueldade, a inércia começam a corroê-las e quando você percebe, já está fazendo parte daquele mesmo mundo que você odiava. Você desacredita no amor e nas coisas boas do mundo. Os seus sonhos e ideais, nenhum você conseguiu alcançar; mas não porque não eram possíveis, e sim por desistir da luta. Você teve medo, foi covarde e, por isso, aceitou, se acomodou e cedeu ao mundinho como todos os outros que um dia foram como você. Eles tinham os mesmo ideais que você, os mesmos sentimentos, mas deixaram esvair o que existia de mais bonito, espontâneo e sincero neles.
Você passa a ignorar seus sonhos e julgá-los ridículos e sem fundamento. Eles viram pano de chão, que você pisa e esmaga com crueldade. Sem saber que com eles você também é enterrado. Eles morrem e apodrecem dentro de você, e você se torna amargo e vazio.
Quando se é adolescente, não se satisfaz com migalhas. Você quer sempre mais. Você vive em busca do seu "eu". Quer o mundo todo, mas não só pra você: quer o mundo todo para todos.
Mas crescido e maduro, você passa a viver de aparências, com máscaras e disfarces. E quando você pára um segundo e olha para si sem a máscara espessa, sente muita vergonha e agora tem até medo de voltar. É aí que você percebe que é um adulto: você quer ser ingênuo e chorar como uma criança, ser rebelde e corajoso como um adolescente, mas não pode, pois é um adulto e deve agir como tal.

Cecília Costa Cabral
2° semestre/2002


Pedro,

Eis neste texto os pensamentos, as angústias e as decepções de uma garota de 14 anos. Algumas coisas permanecem, mas muitas mudaram. O texto é infantil e equivocado devido ao seu radicalismo.
Eu destruí os adultos e o seu mundo. Faltou-me perspicácia, ponderação e Machado. Amadureci (claro que é um processo em constante evolução). Ter jogo de cintura é preciso, e isso não é necessariamente hipocrisia. Além de que é preciso encarar e modificar o que julgo errado, ao invés de me fechar e me privar também das coisas boas.
Você recebe pedras todos os dias, mas tem a capacidade de escolher o que vai construir: um muro ou uma ponte. Optei por várias pontes.
É isso, transcrevi essas palavras repetitivas e sem estilo mais para registro e atender seu pedido que por mérito. Apesar de tê-lo apreciado muito na época. Sei até o que você vai dizer: "Cada obra pertence ao seu tempo". E eu direi: "Sim, e o meu julgamento também."

Céci
06/08/05 - sáb - 00:19


quarta-feira, 3 de março de 2010

Resposta a Selmy Menezes de Sousa

Selmy, irmã caçula de Bernardo possui um blog. Recentemente escreveu sobre a importância de se resgatar a emoção das primeiras vezes. Para ler mais, clique aqui.

Estive pensando sobre isso e acredito que seja em busca por essas primeiras emoções que eu estou publicando nossos textos antigos e contando aos poucos aqui a história do nosso namoro. Mas ao mesmo tempo, se ficarmos presos às primeiras emoções, acho que não avançamos. "Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, nem ama duas vezes a mesma pessoa" ou algo parecido... Pois mudamos. Imagino que seja difícil fazer a manutenção dessa emoção em casamentos de décadas de vida. Não acho também que seja com os olhos voltados pro passado que podemos fazê-lo, senão amaremos o que o outro foi, mas o outro muda sempre. É preciso amar o que ele é no presente. É preciso tentar renovar a emoção de outra maneira. Talvez fazendo um curso juntos, viajando ou saltando de pára-quedas lol...

Beijo, cunhada!

O Pólen da Vida

Quando começamos nossa amizade, Pedro e eu, eu não sabia que ele era evangélico. E levamos um certo tempo a tocar nesse assunto, afinal, política e religião não se discute. Não nas primeiras conversas com alguém, à priori. Tínhamos o hábito de mostrar nossos escritos antigos, recentes, escritos diretamente um pro outro ou não. Quando certa vez, no meio de alguns de seus textos, encontramos "O polém da vida"...

- Ah, desse você não vai gostar... Disse Pedro.

- Deixa eu ler primeiro, depois eu te digo.

- Mas... você não vai entender.

Ali ele tinha me ofendido! Resignei-me. E decidi não insistir, mas também não ler mais nada aquela noite. Eu estava realmente magoada. Se tem algo que pode me ofender é subestimar minha inteligência. Mas depois deixei pra lá. Vim a ler esse texto meses depois apenas, quando já estávamos namorando e Pedro viu em mim alguém em busca do evangelho. Alguém com sede de conhecer Deus. Bom, antes ele não poderia saber. É verdade que nem todos entendem. Acostumada a viver intensamente na igreja, com meus irmãos em Cristo, não tinha ainda realmente tido a oportunidade de conversar com alguém que não divide comigo a ciência do Amor de Deus. É triste. É frustrante. Principalmente ver alguém debochar do que é a base da sua vida. Agora eu entendo o receio de Pedro e sua hesitação em me mostrar seu texto. Mas admiro hoje a coragem que ele adquiriu de adimitir sua fé e se apresentar como um servo do Deus de Abraão, Isaque e Jacó.

Eis o texto :

"Uma abelha voa, plácida e metódica, de flor em flor, colhendo néctar. O produto dos seus esforços será convertido em sustento para toda sua raça. Durante seu labor, ela se suja de pólen, como um ferreiro de fuligem. Ossos do ofício. Ela certamente não imagina que está a ajudar a planta a fecundar-se, fechando seu ciclo de vida.

Assim é o crente em Jesus. Ele sai do seio de sua família para sua azáfama diária, pelo mundo arredio, pelas entranhas de uma sociedade incrédula, colhendo, laboriosamente, o sustento, seu e dos seus. Ao mesmo tempo, ele leva consigo a luz que recebeu do Pai, espalhando-a de flor em flor, fecundando a planta, criação de Deus. E o Evangelho se multiplica, se espalha por todo o campo.

O homem crente, se não for chamado, especificamente, para isso, não precisa abandonar tudo e todos, que ele ama e que o amam, para cumprir a ordem de Cristo, "ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura". Ele pode espalhar o benefício da salvação por entre os que o cercam, por entre os que cruzam seu caminho todos os dias. Sem sair do seu plano de vôo diário por mel. Ele pode colher seu sustendo da criação de Deus, a planta, e levar vida de flor em flor, sem sair do seu percurso. Afinal, não há uma única abelha. Há milhões delas. Há milhões de crentes, indo e voltando, todos os dias, entre o lar, o trabalho e a escola, num movimento contínuo de migração pendular. Basta que sejamos fiéis, íntegros, íntimos de Deus, que quer ser um amigo íntimo. Que quer se aproximar, mas nem sempre é recebido. Quando é, enche de virtude o crente, o invólucro do Espírito-Santo na Terra. E o pólen da vida é espalhado, naturalmente, acompanhando o movimento natural do dia-a-dia.

Entretanto, um homem pode ser chamado para desafiar sua própria natureza. Para atender a um clamor em terras longínquas. Um clamor por vida, também, mas vindo de lábios muito mais sedentos. Vindo de campos onde não há abelhas, borboletas, vento, ou nada que espalhe o pólen divino, a remição dos pecados. Esse homem mostra a virtuosa bravura que nem ele mesmo supunha ter. Levanta-se, começa a andar, na direção que o Senhor lhe mostra, atravessando montanhas, desertos, oceanos, fronteiras de toda ordem, até alcançar a seara. Essas são fronteiras geográficas. Muitas vezes, cruzadas no silêncio do interior de um avião. Há fronteiras mais dolorosas. Há incredulidade, preconceito, perseguição, morte. Essa dói menos. Alguns chamam até de bênção. Pode até ser, para os que vão se encontrar com Deus. Mas para os que ficam, é tristeza. Quantas pessoas desejaram, mergulhadas num caudaloso e amargo pranto, que seus amados não tivessem se transformado em mártires, com seu momento mais belo empalhado na memória? Quantas lágrimas foram derramadas? Se pudéssemos colhê-las, todas, quanta água salgada daria? E se as multiplicássemos pelo sofrimento profundo e agudo que elas representam, quantos dilúvios teríamos?

Essas perguntas lúgubres parecem não atravessar a mente dos escolhidos do Senhor. Eles emanam a mais buliçosa alegria, agradecem a tarefa e começam a realizá-la. Deus nos abençoe. E que, assim, possamos dividir com esses heróis o néctar nosso de cada dia."


Pedro Bernardo – maio de 2005.


sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Pra encerrar a série de redações nada parciais de 2005

Tema: « Uma coisa é pôr idéias arranjadas, outra é lidar com um país de pessoas, de carne e sangue, de mil-e-tantas misérias... »


A Peste


Se planejar fosse o bastante, a felicidade seria uma doença epidêmica, incontrolável e, já há muito tempo, moléstia incurável e fatal de cada cidadão da Terra. Padeceríamos todos da idéia absurda de que não há problema algum no mundo.

Primeiro, o infectado faria planos mirabolantes para solver cada dor de cabeça, cada calo, cada beijo não dado, sem fazer nada. Iria pensar no analgésico, em tirar o sapato apertado, em agarrar a moça, mas não moveria um dedo sequer. Ficaria a supor como seria bom ver-se livre dos males. E a conjetura, certa hora, ser-lhe-ia suficiente. Nesse segundo estágio da doença, ele passa a deleitar-se com suas soluções, umas óbvias, como tirar o sapato, outras hipotéticas, como agarrar a moça. Apesar de continuar com o calo doendo e sem o beijo, ele se sente feliz. Suas soluções lhe proporcionam toda a satisfação de que ele precisa, embora tenham permanecido em sua mente, onde nasceram.

No paroxismo da patologia, que anuncia o estágio final, todos veriam o estado decadente e lastimável de alguém que está tão ocupado em engendrar pensamentos que abandonou a parte física de sua vida. Alguém que, ao se deparar com a morte certa e iminente, imagina inventar certo elixir da vida, como o qual solucionaria a última das tristezas a ser tragada por algo que se diz vivo.

Assim, depois de solucionar, talvez, a fome no mundo, em um certo momento altruísta de sua existência, morreria sorrindo e quieto, o homem criativo e de braços cruzados. Morreria de felicidade.


Pedro Bernardo

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Ainda na aula de redação...

Tema: « Navegar é preciso; viver não é preciso. » (Fernando Pessoa)


Universos Paralelos e Hipotéticos Derivados do Arrependimento


Encaramos decisões, desde as mais prosaicas até os mais truncados dilemas. Essa rotina pode significar a existência de milhares de realidades paralelas à nossa, mesmo que imaginárias, onde as coisas são diferentes devido a decisões diferentes.

Quanto maior o arrependimento por certa escolha, mais bem definido fica o universo que se cria ao se supor como teria sido se o caminho tomado tivesse sido outro. Não sabemos o que é certo. E, no meio da nossa ignorância, somos forçados pelo destino a decidir. Mesmo quando acertamos, ficamos a pensar se, realmente, acertamos. Não há como ver a realidade paralela derivada daquela escolha. Como saber, então? Contentamo-nos em supor que seria maior ainda a tristeza.

Com o passar dos anos, os erros são esquecios. Por mais amargo que seja o gosto de uma escolha errada, ele passa. Esquecer é, portanto, uma dádiva imensurável. Sem ela, um adulto seria incapaz de carregar o peso do próprio arrependimento. Seria romantismo acreditar que as dores morais serão levadas ao túmulo. Talvez as da velhice. É preciso soltar a parte errada que não se pode consertar. Só assim será possível se concentrar na parte não perdida, na parte que ainda tem jeito.

Promover mudança é algo muito mais difícil do que se imagina. É necessário poupar esforços, como os que são gastos no engenho de utopias. Sonhar é preciso, mas atrapalha as horas em que estamos acordados.


Pedro Bernardo 2005

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Arrependimento

A vida é marcada, do começo ao fim, com grandes surpresas. Quando começamos a achar que aprendemos a viver, somos golpeados com certa angústia inesperada, ou com certo arrependimento por coisa que fizemos ou deixamos de fazer.

Qual seria a causa do arrependimento maior: não ter ou ter feito? O cético questionará – feito o quê? Não importa; há uma regra universal para a questão. Tudo isso gira em torno do livre arbítrio humano. O poder da escolha foi dado a certa raça imatura, que não sabe o que fazer dele. Ou o que não fazer. Se acreditamos que é errando que se aprende o que é errado e que a vida deve ser vivida através do critério « tentativa e erro », então, nada no mundo será mais doloroso do que não ter feito. Por outro lado, se acharmos que o metabolismo de uma vida é menos conturbado se, na esfera moral, tivermos menos o que digerir, então é melhor ficar quieto. O mais estático possível, para evitar erros. Mesmo se tratando de erros desejados e deliciosos, como um beijo aventureiro destinado a destruir a felicidade alheia. Entretanto, não se pode esquecer que há amigos que consolam e inimigos que atacam depois da decisão. Assim como antes dela. Os deleites compensam os desafios. Se mover é arriscar sem certeza. Mas ficar parado é ter certeza de que tudo que está ruim vai continuar asim. E o que está bom parece que vai acabando. Para quem não se move, as alegrias vão se esvaindo e as tristezas vão se condensando no fundo da alma. É preciso agitar a essência da vida, para poder ver as lamúrias e tratá-las. Tentar esquecê-las, nos momentos em qe achamos que conseguimos, não passa de um paliativo.

A dúvida jaz, exatamente, na parte mais frágil de uma vida. Ela, a incerteza, pode ser a ruína de um patrimônio emocional que levou meses para ser construído ou de um pequeno presente proibido, que carrega consigo um efêmero e vasto deleite, muito maior do que merecido.


2005, aula de redação. O professor dá o tema: « Ainda não estamos habituados com o mundo. Nascer é muito comprido. » Frase de Murilo Mendes. O texto que acabaram de ler é a resposta de Bernardo. Não sei se o professor entendeu todas as nuances. Eu entendi mais do que queria na época. Bom, ainda bem que imobilidade não combina em nada com a personalidade do meu marido.

Brincadeira?

Após reler alguns dos nossos textos à procura de algo pra publicar sábado, reencontrei esse conto que tanto marcou nossa história. O autor é Tchékhov, escritor russo do século XIX. E quem me apresentou essas linhas foi Pedro. Na época estávamos vivendo uma amizade densa, que trazia consigo a semente da paixão na qual mergulharíamos poucos meses depois. Pedro já tinha entendido a situação antes de mim, o interesse nasceu primeiro nele, é verdade. Certa noite, no cursinho, ele me apresenta o papel, escrito a mão. Leio. Não sei se entendo. Através esse conto, Pedro susurrou no meu ouvido, como o narrador fez com Nádia. E como a garota, eu não sabia se vinha do vento ou do amigo a tal voz. A voz de Pedro não me dizia "eu te amo" na época. Ele sempre foi prudente com essa frase; aprendeu com o pai, Jether. Era algo como "posso te amar". Quando eu leio a reação de Nádia, eu me vejo naqueles dias singulares de cursinho, de cartas, filosofia, chocolate e enigmas. E como a moça, aceitei o convite pra subir a montanha, mesmo com medo, na intenção de dissolver a dúvida. O fim da história vocês conhecem. E como vocês podem ver, no nosso caso, não era uma simples brincadeira.

Obrigada, Tchékhov!

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Mal e o Bem

Eu sabia que Yahoo era do mal!


:P

Brincadeira

Um claro dia de inverno... O frio é forte e seco de estalar, e Nádenka, que eu levo pelo braço, fica com os cachos das fontes e o buço no lábio superior orvalhados de prata cintilante. Estamos no cume de um morro alto. Diante dos nossos pés, até a planície, lá embaixo, estende-se um declive escorregadio e brilhante na qual o sol se mira como um espelho. Ao nosso lado está um trenó pequenino, forrado de pano vermelho-vivo.

- Deslizemos até embaixo, Nadêjda Petrovna! - imploro eu. - Só uma vez! Garanto-lhe, ficaremos sãos e salvos!

Mas Nádenka tem medo. Toda essa extensão, desde as suas pequeninas galochas até o fim da montanha de gelo, se lhe afigura como um terrível abismo de profundidade imensurável. Ela fica tonta e perde o fôlego. Só de olhar lá para baixo, quando eu apenas lhe proponho sentar-se no trenó - que terá então se ela arriscar despenhar-se no precipício? Ela morrerá, enlouquecerá!

- Eu lhe suplico! - digo eu. – Não tenha medo! Compreenda, isso é fraqueza, é covardia!

Nádenka cede, finalmente, e eu vejo pelo seu rosto que ela cede com perigo da própria vida. Acomodo-a, pálida e trêmula, no trenó, sento-me, enlaço-a com o braço e junto com ela precipito-me no abismo.

O trenó voa como uma bala. O ar cortado chicoteia o rosto, silva nos ouvidos, bate, belisca raivoso, até doer, quer arrancar a cabeça dos ombros. A pressão do vento tolhe a respiração. É como se o próprio diabo nos tivesse agarrado com as suas patas, e, urrando, nos arrastasse para o inferno. Os objetos que nos cercam fundem-se num só longo risco, que corre vertiginoso. Parece, um instante mais, e estaremos perdidos!

- Eu te amo, Nádia! - digo eu a meia voz.

O trenó começa a deslizar mais devagar, mais devagar, os uivos do vento e os zumbidos das lâminas do trenó já não são tão terríveis, a respiração já não é tão ofegante, e, finalmente, chegamos ao fim. Nádenka está mais morta do que viva. Está pálida, mal consegue respirar... Eu a ajudo a levantar-se.

- Nunca mais farei isto - diz ela, encarando-me com os olhos dilatados, cheios de terror. - Por coisa alguma do mundo! Por pouco não morri!

Logo depois, ela volta a si e já me fita com um olhar interrogador: terei sido eu quem disse aquelas quatro palavras, ou foi apenas uma alucinação dentro do zunido da ventania? Mas eu estou calado diante dela, fumando e examinando com atenção a minha luva.

Ela toma o meu braço e passeamos longos minutos diante do morro. O problema, visivelmente, não a deixa em paz. Foram pronunciadas aquelas palavras, ou não? Sim ou não? Sim ou não? É uma questão de amor-próprio, de honra, de vida, de felicidade, uma questão muito importante, a mais importante do mundo. Nádenka perscruta o meu rosto com olhares impacientes, tristes, penetrantes, responde atabalhoadamente, espera que eu fale. Oh, que jogo de emoções neste rosto encantador, que jogo! Vejo que ela luta consigo mesma, que precisa dizer alguma coisa, perguntar, mas não encontra palavras, está encabulada, amedrontada, embargada pela alegria...

- Sabe duma coisa? – diz ela, sem olhar para mim.

- O quê? – pergunto eu.

- Vamos mais uma vez... deslizar pelo morro.

Subimos para o cume, pela escada. De novo faço Nádenka, pálida e trêmula, sentar no trenó, de novo nos despencamos no precipício medonho, de novo uiva o vento e zunem as lâminas, e de novo, quando o vôo do trenó está no auge do ímpeto e da zoeira, eu digo a meia voz:

- Eu te amo, Nádenka!

Quando o trenó se detém, Nádenka lança um olhar para o morro que acabamos de descer voando, depois perscruta longamente o meu rosto, escuta, atenta, a minha voz indiferente e calma, e toda ela, toda, até mesmo o regalo de peles e o capuz, toda a sua figurinha, exprime extrema perplexidade. E no seu rosto está escrito:

"Mas o que é que está acontecendo? Quem pronunciou aquelas palavras? Foi ele, ou foi engano dos meus ouvidos?"

Esta incerteza a perturba, a impacienta. A pobre menina não responde às minhas perguntas, franze a testa, está prestes a romper em choro.

- Não preferes ir para casa? – pergunto eu.

- Mas eu... eu gosto destas... descidas – diz ela, enrubescendo. Não quer deslizar mais uma vez?

Ela "gosta" destas descidas, e no entanto, sentando-se no trenó, ela, como das outras vezes, fica pálida, ofegante de medo, trêmula.

Descemos pela terceira vez, e eu vejo como ela fita o meu rosto, como observa os meus lábios. Mas eu aperto o lenço contra a boca, tusso, e quando chegamos ao meio do declive, deixo escapar:

- Eu te amo, Nádia!

E a charada continua charada! Nádenka se cala, está pensando... Acompanho-a para casa, ela procura andar mais devagar, atrasa o passo, espera sempre que eu lhe diga aquelas palavras. E eu vejo como sofre sua alma, como ela tem que se esforçar para não dizer:

"Não pode ser que tenha sido o vento! E eu não quero que tenha sido o vento quem falou aquilo!"

No dia seguinte de manhã, recebo um bilhetinho: "Se o senhor vai ao morro hoje, venha me buscar. N." E desde essa manhã, comecei a ir com Nádenka ao morro, todos os dias e, voando encosta abaixo, no trenó, eu pronuncio, cada vez, a meia voz, as mesmas palavras:

- Eu te amo, Nádia!

Logo Nádenka acostuma-se a esta frase, como ao vinho e à morfina. Não pode viver sem ela. É verdade eu voar montanha abaixo lhe dá medo, como antes, mas já agora o medo e o perigo adicionam um encanto especial às palavras sobre o amor, as palavras que, como dantes, constituem uma charada e oprimem a alma. São sempre os mesmos dois suspeitos: eu e o vento... Qual dos dois lhe declara o seu amor, ela não sabe, mas, ao que parece, isto já não lhe importa mais; não importa o vaso em que se bebe, importa ficar embriagada!

Um dia, fui até o morro sozinho; misturei-me à multidão e vejo como Nádenka chega até o sopé, como me procura com os olhos... E depois, timidamente, ela sobe os degraus... Ela tem medo de ir sozinha, oh, quanto medo! Está pálida como a neve, treme e vai, como se fosse para o cadafalso, mas vai, vai sem olhar para trás, com decisão. Pelo visto, ela resolveu, finalmente, tirar a prova: será que se farão ouvir aquelas palavras estranhas, quando eu não estiver junto? E vejo como ela, lívida, com a boca entreaberta de horror, toma assento no trenó, fecha os olhos, e, despedindo-se para sempre do mundo, o põe em movimento... "zzzzzz..." zunem as lâminas. Ouvira Nádenka aquelas palavras? Não sei... Vejo apenas como ela se levanta do trenó, exausta, fraca. E vê-se pelo seu rosto que nem ela mesma sabe se ouviu alguma coisa ou não. O pavor, enquanto ela voava morro abaixo, roubou-lhe a capacidade de ouvir, de distinguir os sons, de entender...

Mas eis que chega o mês de março, primaveril... O sol torna-se mais carinhoso. O nosso morro de gelo escurece, perde o seu brilho e se derrete, afinal. Acabaram os passeios de trenó. A pobre Nádenka já não tem mais onde ouvir aquelas palavras, e nem há quem as pronuncie, pois o vento não se ouve mais, e eu me preparo para voltar a Petersburgo - por muito tempo, quiçá para sempre.

Uma vez, pouco antes de partir, uns dois dias, estava eu sentado, ao crepúsculo, no jardinzinho, separado do pátio onde mora Nádenka por uma cerca alta de madeira. Ainda faz bastante frio, debaixo do lixo, ainda há neve, as árvores ainda estão mortas, mas já cheira à primavera, e, preparando-se para a noitada, as gralhas fazem grande algazarra. Aproximo-me da cerca e espio pela fresta. E vejo como Nádenka sai para os degraus e fixa o olhar tristonho e saudoso no firmamento... O vento da tarde sopra-lhe no rosto pálido e desanimado... Ele lembra-lhe aquele outro vento, que uivava lá no morro, quando ela ouvia aquelas quatro palavras, e seu rosto fica triste, triste, e pela face desliza uma lágrima... E a pobre menina estende os braços, como se implorando ao vento que lhe traga aquelas palavras mais uma vez. E eu, esperando o vento favorável, sopro a meia voz:

- Eu te amo, Nádia!

Deus meu, o que se passa com Nádenka! Ela solta um grito, sorri com o rosto inteiro e estende os braços ao encontro do vento, risonha, feliz, tão bonita.

E eu vou arrumar as malas...

Isto foi há muito tempo. Agora, Nádenka já é casada; casaram-na, ou foi ela mesma que quis - isto não importa - com um secretário da Curadoria, e hoje ela já tem três filhos. Mas os nossos passeios no morro e a voz do vento trazendo-lhe as palavras "eu te amo, Nádenka", não foram esquecidos. Para ela, isto é hoje a mais feliz, a mais comovedora e a mais bela recordação da sua vida...

Mas eu, hoje, que estou mais velho, já não compreendo mais, para que dizia aquelas palavras, porque brincava...


Tchékhov

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