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sexta-feira, 12 de junho de 2009

"Deixai vir a mim as criancinhas"

Sempre gostei de criança. Me encanto com seus olhos brilhando ao descobrir o mundo, com suas palavras sem melindres, com a pureza do bebê. Gostaria de um dia poder ver o mundo como uma criança, pela primeira vez, sem entender nada. Algumas vezes nos sentimos um pouco assim, pagando micos por aqui. Mas imagino que como será quando formos pra China. Balbuciar palavras, descobrir novos sons que somos capazes de produzir, aprender a comer, nos educar pra viver em sociedade.
Por enquanto, me contento em ver a surpresa em olhos alheios. Desde outubro do ano passado, ainda com o francês manco, comecei a cuidar de Hugo, que na época tinha 10 anos. Sua mãe é psicóloga, muito legal comigo e Pedro e já nos ajudou muito. Hugo é um garotinho ativo, falante, esperto e, algumas vezes, desobediente. Brincamos muito de trotinete, futebol, banco imobiliário e, de vez em quando, xadrez (mas ele não gosta de perder...). Vejam o garoto iniciando seus estudos de piano.


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Quando o casal amigo da Igreja Jean-Anaël e Emilie decidem passear um pouco a dois, eles nos convidam pra cuidar do bebê Nathan. Vamos Pedro e eu, mas quem o coloca pra dormir sou eu. Constumamos jantar lá, brincamos com o pequeno e quando ele dorme vamos ver um filme ou jogar xadrez. Nathan tem 16 meses, uns dentinhos nascendo, um vocabulário limitado, mas cheio de sons e muita simpatia, cheio de sorrisos para todos. ô vontade de apertar essa bochechas, mãe! Ah... como gosto de bebês...

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Certa vez cuidei de uma menininha, Agathe, de três aninhos. Uma graça, cheia de palavras e idéias. Sábado vou cuidar dela novamente. Assim, vou curtindo os filhos dos outros enquanto não devo ter os meus. E mais as crianças na Igreja, e são muitas, graças a Deus. Sou muito feliz entre elas. E com o baby-sitting aproveito pra ganhar uma graninha, que é preciso, né?

O nascimento de Pedro

Dia 5 de julho, Pedro completará 26 anos de idade. Segue um texto escrito pela sua avó, Selma Kaiser, sobre seu nascimento.

"O garotinho de 5 anos era um baú de perguntas.
Há pessoas que têm respostas pra tudo; ele, contudo, tinha perguntas pra tudo!
O interessante em tudo isso é que ele não perguntava por perguntar, mas porque queria mesmo saber. A sua entrada neste mundo foi um evento incomparável! Naquela ocasião pude viver uma experiência espiritual e emocional única! Eram duas horas da madrugada quando fui acordada com um leve toque no ombro e um chamado sussurrante; era Jether que me chamava.
- Mamãe, venha conhecer o seu netinho que acaba de nascer!
O meu coração deu um salto tão grande que me pôs de pé.
- O que???!
- É, mamãe, preciso de sua ajuda; o que faço com o cordão umbilical?
Bem, nem preciso dizer que o salto do coração e aquelas palavras provocaram em mim uma tremedeira tal, que era muito difícil manter-me de pé.
-Mas filho! Tive três filhos, mas só conheço a teoria!
Daí, começo a informar-lhe que só sabia desses procedimentos por ter lido bastante a respeito do assunto. Essas informações referiam-se a detalhes como, por exemplo, a que distância se atava o cordão para depois cortar, com instrumento devidamente esterilizado etc. Comecei a lembrar dessas coisas e isso não durou mais que alguns segundos e lá fui eu acompanhando o "filho-parteiro".
A cena que vi a seguir era indescritível! O bebê deitado de bruços sobre o ventre de sua mãe, que revelava em seu semblante cansado uma imensa alegria.
Uma garota de 18 anos dava à luz seu segundo filhinho!
O parto ainda não tinha chegado ao fim e, aos poucos, todo aquele trabalho foi sendo concluído. O cordão umbilical, devidamente cortado com uma faca de cozinha, previamente esterilizada com álcool e a chama acesa do fogão.
A placenta foi enterrada no quintal.
Peguei em meu colo aquele bebê lindo e forte e imediatamente cuidei dos procedimentos necessários, como a limpeza de seu corpinho e a colocação de sua primeira roupinha, que estava já escolhida. Enquanto eu fazia isso, a mãe levantou-se da cama, reclamando de muito calor e meteu-se em baixo do chuveiro, inclusive lavando seus longos cabelos. Ao voltar do banho encontrou a cama (que estava um verdadeiro caos, em razão da situação de emergência) arrumadinha e cheirosa.
Para mim, o clímax dessa experiência aconteceu quando senti um perfume indescritível, nunca experimentado antes por mim. O perfume era como o de uma presença inefável, soberana, naquele quarto da minha casa.
Muitas lágrimas me vieram aos olhos e constatei que DEUS estava ali! Atuando, operando através da instrumentalidade do pai Jether e da tia Selmy. Eu soube, posteriormente, que hove momentos muito difíceis, quando o cordão umbilical enroscou-se ao redor do pescocinho do Pedrinho e, milagrosamente, foi solto.
Aquele perfume não era humano, nem de flores, nem de alfazemas ou colônia para bebês!
Era sobrenatural, como de anjos.
Jamais pude esquecer aquele perfume!

SKS"

Fluxo

Após mais um período de tranquilidade, eles voltaram. Após o período de hibernação, eles acordaram plenos de energia. Com vigor o suficiente para transpor as muralhas levantadas e derrubar os portões em cadeados. Encadeados eles vêm; unidos são mais fortes. Eles fazem a festa. Eles quebram bonecos de porcelana. Eles reviram baús empoeirados. Eles trocam os quadros de lugar. A agenda é riscada. O bolo queima. Um deles rasgou minha roupa preferida. Outro esqueceu os sapatos ao partir. O mais velho manchou meu sofá de ketchup. Um dos mais queridos não compareceu sem me avisar. E muitos são desconhecidos.

Convivi com eles durante uma semana. Na verdade, o faço frequentemente. Admito mesmo que sinto um certo prazer em ver tudo fora do lugar. Colar os pedaços da boneca, ainda que faltando uma peça. Reorganizar o baú lentamente enquanto vejo as relíquias e revejo o passado encerrado nelas. Com os quadros fora do lugar, os vejo como pela primeira vez, me surpreendo e percebo a beleza em todo seu frescor. Sem agenda perdi um compromisso importante, o bolo era para uma ocasião especial. E o ketchup continua lá. Aqui.

Ouvi atentamente o que cada um me dizia. Às vezes todos falavam ao mesmo tempo. Algumas vezes cortei a conversa e simplesmente me retirei. Caótico. Mas com sentido. Sentido muitas vezes deturpado. Até que lembrei que eles não eram meus convidados. Nem mesmo bem-vindos. Ou tinham deixado de ser. Não tenho muitas certezas. Às vezes a memória evoca vagamente cenas em que me encontro à porta sabotando meu próprio sistema de segurança. Sonho? Pensamentos. Ciclicamente me visitam, mas nunca ficam mais de uma semana. Eles sempre partem, deixando uma enorme bagunça para eu arrumar. Eles me dão trabalho. Eles me tomam tempo. Sinto vontade de escrever o que eles me dizem. Mas me recuso. Não vou registrar algo que não vai durar. Não vou eternizar o que será um passado bobo e distante em dois dias. Talvez amanhã. Talvez mesmo antes de terminar a frase seguinte. Instabilidade.

Em breve cada um deles, o ciumento, o pessimista, o auto-depreciativo, se esvairá diluído nas gotas vermelhas que verserá meu corpo num papel. Outros renascerão silenciosos, como um bebê morto, e repousarão contidos no fundo do meu ventre. Até que num aborto, após mais um ciclo, eles gritarão em nascimento. Inútil tentar se suicidar numa sinapse, se agarrar às paredes do útero, do esôfago. É chegada a hora. A época em que eles vêm me fazer uma visita desconcertante. Um dia, eles encontrarão um forte intransponível. Controle sobre os hormônios. Um ser mais racional para não pensar...



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