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sábado, 31 de janeiro de 2009

Sétimo dia

E havendo Deus acabado no dia sétimo a obra que fizera,
descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito.

Gênesis 2, verso 2

A obra que fizemos não tem muito de divina, e tem tudo de humana. À noite anterior, tínhamos presenciado a briga deselegante do gerente contra uma senhora estrangeira, cujo cartão bancário não tinha funcionado. O gerente esbravejava atrás do balcão que "a senhora não quer entender, e isso é infeliz! Isso é infeliz!" e ele repetia, suando, sua explicação sobre o que se passara. A senhora estava mais calma, mas perguntava tranqüila e irritantemente as mesmas coisas. Quando ela se foi, contrariada, o homem enxugou o suor da testa e disse, à voz audível, mas baixa:
- Boa noite.
Pagamos em espécie a soma superior ao planejado para aquela noite, e perguntamos se poderíamos guardar as bicicletas conosco, no quarto. Ele perguntou se elas estavam muito sujas, para o que eu respondi que "não mais do que eu". Felizmente, ele não tardou em concordar; essas peças nos são muito caras.
Na manhã seguinte, estávamos atrasados. O despertador não tinha tocado. Ou porque a bateria estava fraca demais, ou porque nós simplesmente não o regulamos. Ou então ele toucou, mas nós não ouvimos, tanto estávamos cansados.
O trem partia a 20 minutos da hora em que acordamos. O sol não tinha nascido, e nós saímos correndo do hotel, para pedalar em jejum os primeiros minutos do dia. Chegamos a tempo.
O trem partiu a caminho de Besançon, cidade que não estava no nosso caminho. Fomos obrigados a passar por lá, porque não havia linha de trem pelos caminhos que tínhamos escolhidos.
Chegando lá, pouco depois das 10 horas, teríamos que tomar outro trem, que só partiria dali a 2 horas. Dava tempo de almoçar. Cecília ficou na estação, e eu fui procurar o que comer. Estava pensando no que poderia agradar mais minha esposa, quando passei por um anúncio mais do que sugestivo: pizza para dois, 7 €. Quando a porta me impediu de entrar, eu li os horários da loja. Na França, os restaurantes só abrem nos horários de refeição. A pizzaria abriria às 11. Que horas são? Ao lado da porta, tinha uma máquina para pagar o estacionamento da zona azul, sobre a qual figurava um relógio digital, que não oferecia nem o luxo dos dois pontos piscando, mas que dizia dez e meia. Então eu me plantei diante dele e esperei os trinta minutos, exercitando os dedos afim de não deixá-los congelar. Onze horas, o lugar abriu, eu fui o primeiro a entrar e pedir uma das pizzas do menu, que eu tive o tempo de ler atenciosamente. Quatro queijos, massa tradicional, mas com queijo Chèvre só de um lado. Cecília não gosta muito de Chèvre.
Vinte minutos depois, eu estava pedalando para a estação, com a mão direita no guidom e a esquerda sob a caixa quente e cheirosa de um presente gordo para minha princesa esbelta. E como ela está esbelta... Seis dias de pedalada emergiram músculos que nenhum de nós dois conhecia.
Quando eu cheguei com aquela refeição farta, comemos sem sombra alguma de remorso. Éramos a imagem viva da satisfação.
Depois, o outro trem nos levou a ver neve, que a cada curva cobria mais da paisagem. Primeiro tímida...

De Orage

depois mais orgulhosa, ornando o pasto onde o sol a tinha poupado...

De Orage

depois enorme e bela, cobrindo tudo com suas toneladas de água fofa e branca.

De Orage

Estávamos felizes. Como é poderoso nosso Deus. E como é bom constatar isso na poesia da paisagem.

De Orage

De Orage

De Orage

Quando chegamos a Morteau, a última cidade antes da fronteira, estávamos maravilhados. Fazia muito frio, mas o céu estava aberto, sorridente, e o sol se pôs de bom humor, entre montanhas inspiradoras.

De Orage

De Orage

De Orage

Aqui, faço minhas as palavras do poeta Lucas Rebouças:

"a cidade nunca fora tão bela
os tons de cinza ajudaram na criação
do cenário de um filme romântico
baseado em sonhos reais"

Nossos tons não eram cinzas, eram brancos. Mas o que são cores novas nos olhos de um homem feliz, senão traduções desconhecidas de um verso que ele traz de cor?
E como o poeta, eu também "to feliz".

De Orage

Passamos o fim do dia namorando a cidade e um ao outro até o horário longe do trem ir chegando. Entramos na estação (aquecida) horas antes da partida. Mas esperar foi bom. O melhor da festa é esperar nela.

De Orage

Quando deixamos Morteau, levamos saudade de uma cidade que não conhecemos, onde não falamos com quase ninguém, mas onde chegamos tão perto um do outro que tudo em volta parecia ter sido construído para que vivêssemos aquele momento. As lembranças vão ficar.
Depois, finalmente em território suíço, na estação de La Chaux-de-fonds, encontramos todos os guichês fechados. Havia duas máquinas para comprar as passagens para Tramelan. A primeira, engoliu 20 € nossos e até agora não devolveu. A segunda, nos vendeu dois bilhetes de um trem que não existia, e nós só descobrimos isso dentro do trem que iria até a metade do caminho até Tramelan. Eram 10 da noite, e só havia duas pessoas no veículo. Dois brasileiros, com duas bicicletas.
O maquinista veio nos perguntar até onde nós iríamos com aquelas bicicletas, àquela hora da noite. Dissemos Tramelan, e ele disse: "o último trem para Tramelan já está lá, a essa hora!"
- O quê?!
A magia de Morteau se transformou numa irritação no mínimo compreensível; como um povo civilizado e rico como o suíço desenvolveria um software capaz de cometer a estupidez de vender um bilhete de trem, válido por um dia, para um percurso que não seria mais feito naquele dia?
Viajamos até Plein écranLe Noirmont‎, e, minutos antes de chegar, telefonamos para os Leiber pedindo socorro.
- Marcel, estamos chegando em "Le Normand" (mal pronunciado), e não tem mais trem para Tramelan!
- Le Normand? Onde é isso?
Ele pensou que estávamos perdidos no meio da França. Estávamos meio perdidos na Suíça, mas não perdidos no meio da França.
Eu corrigi a pronúncia do nome da cidade, disse que tinha certeza de que estávamos na Suíça (tudo à nossa volta estava escrito em 4 línguas), e que chegaríamos na estação em alguns minutos. A bateria do telefone resistiu até o fim da ligação.
Na estação de Le Noirmont, não havia ninguém além de nós e (pode acreditar) uma senhora no guichê! Pois é; um dos dois guichês da estação estava aberto e funcional. Enquanto esperávamos Marcel, Cecília recuperou parte do dinheiro que o sistema tinha engolido da gente. Nada dos 20 €. Apenas a diferença de menos de 13 € entre Le Noirmont e Tramelan. Diferença que percorremos com Diamantine Leiber, a jovem senhora que seria nossa mãe pelos 7 dias dos sonhos que tínhamos pela frente. Foi assim que Marcel Leiber descreveu o que ele preparava para nós nessas férias: um "séjour de rêve". Ele nos recebeu com um sorriso largo e um abraço brasileiro.
Chegando no seu aconchegante lar, perto de onze horas, nos sentamos à mesa de amigos mais do que caros. As meninas acordaram, eufóricas, felizes, vieram nos ver, ouvir as histórias.
E assim se fez o Sétimo dia da tempestade. Deus deu o exemplo, mas a gente teima em viajar, viver e cansar a semana toda...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Sexto dia

Após uma noite de repouso no simpático jardim daquela casa que nos ofereceu muito mais do que o pedaço de terra que pedimos, partimos na manhã do sexto dia com um novo plano. Instruídos e aconselhados pelo homem que nos acolhera, decidimos percorrer mais 57 km até a cidade de Lons-le-Saunier et pegar um trem em seguida. Dessa maneira evitaríamos o relevo mais duro de todo o percurso, o frio que seria mais intenso e chegaríamos enfim no aquecedor da rua Sous la Lampe; eu já sonhava com a rua da família Leiber... Revigorados e ansiosos, acordamos antes do sol e esperamos prontos, em pé, olhos fixos no céu, pelos primeiros sinais de luz. Cedinho ainda deixamos para trás aquele homem, desconhecido, que ignora o fato, mas marcou nossa vida. A despedida tinha ocorrido na noite anterior ainda.

De Orage

O dia estava ensolarado e ter um alvo mais próximo nos animou. Pedalamos com determinação e com o espírito leve. Grande satisfação a cada quilômetro vencido. Chocolate, fotos, entra numa cidade - sai da cidade, Sornay, Louhans, Courlans, Montmorot... Lons-le-Saunier! Chegamos antes do previsto, às 16 horas aproximadamente.

De Orage
De Orage
De Orage
De Orage

De Orage
Nesse fim de tarde nosso espírito aventureiro descansou e cedeu espaço a um grande desejo de conforto. Passagens de trem no bolso, "amanhã estaremos na Suíça"... E a barraca pareceu pequena demais, o tempo, frio demais, as pernas, pesadas ao extremo. Procuramos um albergue, mas o que achamos foi um hotel de médio porte e mais caro do que o que estaríamos dispostos a pagar ordinariamente. Mas estávamos vivendo dias nada ordinários essa semana. "Eu só não quero dormir na barraca hoje", eu pensava. EtapHotel: ducha quente, X-men na televisão, cama de casal, aquecedor, edredom. Eu estava radiante de felicidade, aproveitei cada grande invenção da humanidade com alegria e gratidão. A lâmpada, o chuveiro, a mesa, a cama, o copo, coisas pelas quais não sentimos necessidade de agradecer em geral.

De Orage
De Orage
De Orage
Passamos uma noite de rei. Dormimos profundamente. "Amanhã estaremos na Suíça..." Esse pensamento não me abandonava. "10, Rue Sous la Lampe... Só não podemos perder o trem... Vou fazer anjinho na neve... Temos que acordar na hora... Vamos comer fondue... Será que já tá na hora?..."

- Pedro!! O despertador não tocou! Corre!
- Hã?!

sábado, 24 de janeiro de 2009

Quinto dia

O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra.
Salmo 34, verso 7

A noite passou bem. Dava para ouvir o barulho dos carros que passavam na estrada, mas eu só percebi isso pela manhã. Dormi profundamente, muito cedo, e acordei revigorado. Cecília também tinha dormido o bastante.

Depois de comer, enrolei os colchonetes isolantes e os sacos-de-dormir enquanto Cecília equipava as bicicletas. A cada noite, nós retirávamos todos as partes elétricas, que não suportariam a umidade da noite. As garrafas d'água vinham também, logicamente, por outra razão: nós precisávamos da água. Então, enquanto eu arrumava uma parte da bagagem, Cecília cuidava disso. Cadeado, lâmpadas traseiras, dianteiras, velocímetro, garrafinhas.

Depois, eu comecei a refletir sobre como carregar os sacos de dormir. Nada do que tínhamos pensado até então tinha funcionado perfeitamente. Primeiro, Cecília carregava o dela, eu o meu. Só que o peso nas costas dela doíam em mim, embora ela não reclamasse. Já no segundo dia, eu amarrei os dois colchonetes na mochila dela (350 g) e os dois sacos-de-dormir na minha (2,5 k). Me parecia justo. A barraca foi amarrada na N1, no quadro durante o primeiro dia, e atrás da cela do segundo ao quarto dia. Essa configuração deixava minha bagagem extremamente desconfortável. O peso é suportável, mas os sacos-de-dormir pendurados eram muito desajeitados a cada vez que eu tinha que retirar a mochila, e também enquanto pedalávamos. Na manhã do quinto dia, eu estava resoluto a começar o dia com uma solução melhor. Decidi tentar amarrar os dois sacos-de-dormir atrás da cela da N1 e a barraca na mochila. Assim, o maior peso estaria sobre a bicicleta, e haveria um elemento a menos pendurado às minhas costas. Foi nesse dia que nasceu a melhor configuração, se bem que ela não era ainda perfeita, como iríamos verificar.

Quando tudo estava empacotado e pendurado na gente, fomos saindo da floresta, empurrando as bicicletas também carregadas.

Uma vez na estrada, pedalamos muito e conversamos bastante também. Decidimos ficar atentos à hora do almoço, e avançar o máximo possível. Nesse dia, as paisagens se revelaram as mais lindas. As colinas de pasto tinham um verde especial, vimos uma igreja antiga e majestosa, que se passaria por castelo. Nos deparamos com uma manada de bois e vacas, guiada por um homem a pé, seguida por outro à trator. Quando eu estava passando, vi um carro que vinha no sentido oposto que certamente atrapalharia Cecília, que estava mais atrás. Passei a manada e parei mais à frente. Voltando-me para trás, vi que, de fato, ela precisava esperar uns momentos. Foi aí que eu percebi um velhinho passando ao meu lado, a meio quilômetro por hora.

- Bom dia! - Exclamei.

Ele abriu um sorriso e respondeu um bom dia não muito nítido, no momento em que Cecília passava. Segui atrás dela por algum tempo.

Enquanto pedalava, eu olhava para o eixo do pedal, escrutando quanto mais ele iria girar. Antes que o defeito se manifestasse novamente, paramos em um vilarejo tão calmo, que nos dissemos que era uma cidade fantasma. Não vimos ninguém, nem gente nem bicho. Nem uma janela aberta. Nada.

A vila era realmente pequena, com duas ou três ruas que se cruzam, e dois caminhos que dão na estrada departamental, um inclinado para cada direção, formando um pedaço de pasto triangular. Percorremos um pouco da vila, procurando algum sinal de presença, e vimos dois carros estacionados em frente a uma casa. Nos aproximamos e tocamos o sininho que pendia ao lado da porta. Quando uma senhora apareceu, pedimos água e, talvez uma ferramenta, para tentar consertar a bicicleta.

- Ah, eu vou chamar meu filho. Ele pratica bicicleta.

Momentos depois, um homem formado, alto e loiro, apareceu, perguntou qual era o problema, olhou o pedal, mexeu, e começou a balbuciar um diagnóstico técnico, entre soluções possíveis, enquanto mergulhou de volta no interior da casa, de modo que ouvimos sua voz se afastar, sem se calar. Não deu para entender muita coisa. Mas me parecia que ele sabia o que estava dizendo, e algo muito lógico me dizia que ele voltaria com uma caixa de ferramentas.

Minutos depois, eu me vi diante da N1 sem algumas peças do pedal, sendo martelada violentamente de um lado, enquanto eu apoiava um pedaço de madeira do outro. Enquanto martelava, o homem declarou que já correu muito de bicicleta, que já fez corridas importantes, de enduro, e que agora fazia outros esportes. Perguntou até onde iríamos, se o frio não atrapalhava muito, e não parava de trabalhar. Os golpes de marreta que N1 estava suportando me pareciam muito duros, mas o homem não tinha pedido licença, tinha tomado toda a liberdade de martelar o que quisesse, e parecia tão certo do que fazia, e afirmava experiência tão vasta no assunto, que eu não ousaria interrompê-lo. Além disso, o que mais eu poderia fazer?

Pouco tempo depois, nós agradecemos, ele nos desejou boa estrada, sua mãe ofereceu comida, nós recusamos polidamente, e seguimos viagem, com o pedal bastante diferente. O rolamento está podre, mas até o momento em que eu escrevo é o mesmo, e não travou mais.

Carregamos conosco também a preciosa informação de que encontraríamos uma loja especializada em bicicleta na cidade de Tournus, a 50 km dali. E decidimos que naquele dia chegaríamos naquela cidade. Pedalamos o dia inteiro, com a responsabilidade de termos que avançar o bastante para consertamos a bicicleta, que ainda não sabíamos se estava curada, e encontrarmos um cyber-café para mandarmos notícias para o Brasil e para a Suíça.

Foi com esforço que alcançamos nosso objetivo, mas já era um pouco tarde, o sol se pôs um pouco antes de chegarmos ao centro da cidade e encontrarmos aberta a tal loja. Queríamos comprar também um bagageiro para Rippley e dois pares de óculos escuros (tínhamos perdido os nossos no primeiro dia da viagem). Um homem simpático nos atendeu, conversamos um pouco, ele analisou rapidamente N1. Ele nos deu o diagnóstico, que coincidia com o do esportista da cidade fantasma, e acrescentou que a ferramenta necessária tinha quebrado no dia anterior.

- Quebrou ontem?! E não tem outra ferramenta ou outra maneira de consertar?

- Não... Sinto muito.

Saímos da loja um tanto desanimados, mas era preciso seguir. Estava ficando tarde, precisávamos encontrar logo um lugar para montar a barraca. Saímos da cidade, pegamos novamente a estrada, mas estava escuro. Eu estava com medo. Encontramos um vilarejo com algumas casas grandes e bonitas. Nada de fazendas ou grandes pastos, uma área nobre – “vai ser difícil...”.

Era véspera de Natal. As janelas emanavam a felicidade egoísta do mundo moderno. Pouca gente ousaria abrir a porta. Poucas portas tinham campainha. A última casa da rua tinha um jardim enorme e umas árvores ao longe, atrás. Uma porta de vidro revelava uma cozinha aconchegante no interior, onde uma mulher remexia os preparativos de uma refeição. Já estava escuro. Cecília tirou a mochila, o gorro, as luvas, e se achegou à porta, andando devagar por sobre a grama do jardim. Eu fiquei na calçada, segurando as bicicletas e o coração.
Logo que a porta soou algumas batidas, a mulher saiu da nossa vista. Alguns segundos depois, a porta se abriu e um homem forte apareceu e perguntou:

- Pois não?

- Boa noite, senhor. Desculpe se incomodamos. A gente sabe que hoje não é um dia muito conveniente para surpresas desse tipo, mas nós acabamos ficando sem muita escolha... Saímos de Clermont à cinco dias com a intenção de chegar hoje na casa de alguns dos nossos mais caros amigos, em Tramelan, na Suíça. Seria justamente para passar o Natal com eles. Mas o caminho se revelou mais árduo do que esperávamos, e hoje, no fim do quinto dia, estamos na metade do caminho.

À medida que falávamos, completando-se as frases um do outro, o homem, de braços cruzados e olhar severo escutava. De repente, ele tomou a palavra, abrindo um sorriso muito simpático, dizendo:

- Um canto para armar a barraca? Claro! Acho que um banho também cairia muito bem, não? Depois de dias de pedalada...

O espírito experimentou a trégua mais doce, um alívio inesquecível, estávamos no olho do furacão. E ele continuou:

- Podem se instalar por aqui, perto da casa. É o fim da rua, não tem movimento de carros; vocês vão poder ficar tranqüilos aqui. Daqui a pouco eu volto, vocês vão poder tomar seu banho, e a gente conversa mais - e entrou.

Cecília me abraçou e chorou.

Depois de armado o acampamento, ela foi a primeira a entrar no banheiro. Eu fiquei conversando com nosso anfitrião sobre o percurso, sobre tudo que já tínhamos passado. Ele era engraçado, bem humorado, e em pouco tempo me deixou a vontade, embora meu estado não combinasse em nada com o ambiente aconchegante de sua casa. Sua esposa saiu para a missa com os dois rapazes de pouco menos de dez anos. Eles disseram que gostavam de andar de bicicleta também.

Ele ficou, não foi à missa, mas garantiu que não era por nossa causa; ele estava de plantão e poderia ser chamado ao trabalho a qualquer momento. Companhia de gaz e eletricidade. Enquanto Cecília tomava seu banho, ele me explicou que sua esposa estava desconfiada e com medo, que se ele não tivesse o número de alguns colegas da polícia no telefone celular, além de um porte atlético, não teria ousado abrir a porta.

Cecília saiu do banho e veio juntar seu sorriso ao nosso. A meu turno, fui tomar meu merecido banho quente. Quando saí, não vi Cecília.

- Ela encontrou meu computador – disse sorrindo nosso novo amigo.
Subimos as escadas de madeira, e num canto escritório, entre portas de quartos, ela escrevia concentrada diante da face familiar do gmail.

- Já escrevi para a família. Agora estou escrevendo para Marcel e para Thierry – disse enquanto chegávamos.

Conversamos mais um pouco, desejamos-lhe feliz Natal e fomos para nossa barraca. Foi a última vez que o vimos. Não sabemos o nome dele, mas eu sei seu rosto, seu sorriso e seu propósito. Deus tinha colocado um anjo no nosso caminho.

Assim foi o primeiro Natal no nosso casamento. Éramos apenas nós dois, mas não estávamos sozinhos.

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Terceiro e quarto dias

De Orage

Acordamos bem cedo e bem motivados. O Sol estava a três horas de nascer. Sob a luz de uma lanterna, fritamos três ovos, e os regamos com azeite. Tomamos leite, e outras coisas. Não me lembro de tudo. Certamente muitas coisas serão perdidas nessa narração. Estou me esforçando para me lembrar dos detalhes. Mas algumas coisas marcantes apagam outras menores, que vão ficando para traz. Até aqui, foram dois dias e duas noites muito intensos. Apesar do progresso pequeno, estávamos dispostos a nos dedicar ao máximo possível naquela manhã. No escuro, não vimos como estava o céu. Não víamos estrelas, mas não sabíamos se o que as cobria eram nuvens altas ou neblina.
Oito horas, supomos que haveria luz nos próximos minutos. Nessa época, o Sol nasce às 8h40. Sabemos que o céu começa a clarear uns 20 ou 30 minutos antes disso. Saímos do pasto com o cuidado de deixar a corrente do portão como a encontramos. Nunca mais veríamos nosso anfitrião, mas isso não amolece nossa gratidão.
Já na estrada, prontos, mas nada de luz. Não podíamos seguir viagem no escuro. As lanternas das bicicletas não são fortes o bastante para nos deixar seguros.
Diante de nós, vimos os faróis de um carro se acenderem. Coisa incomum. As pessoas acordam tarde no inverno. Mesmo as que não estão de férias. Todos os sistemas e horários parecem concebidos para amenizar os dias frios e tristes de apenas oito horas. Fui andando até lá com minha garrafinha d'água. Não sabíamos quantos quilômetros ainda teríamos que percorrer antes de encontrar um casa acordada, e nosso café da manhã tinha consumido toda nossa água. Além disso, ele tinha sido bastante rico em lipídios, que exigem mais água para serem digeridos do que açúcares.
Dentro do carro, encontrei um casal desconfiado e curioso. Perguntaram de onde vínhamos, para onde íamos, e não recusaram um pouco da água que tinham. Nos desejaram "boa estrada" e seguiram. Nós continuamos a esperar a luz, que chegou leitosa, com preguiça, anunciando aos poucos a vasta quantidade de umidade que flutuava sobre nós. Neblina, nublado, água gelada flutuando, congelando o rosto e os pés, até que o suor do esforço físico foi vencendo e aquecendo o corpo.
Até o momento, tinha sido a manhã mais produtiva que tivemos: 50 quilômetros até às 13h00. Parecia, enfim, que os 100 quilômetros por dia eram mesmo possíveis. Só que o terreno era plano, o humor era firme. O cansaço chegaria logo, assim como as montanhas, e o Sol se põe às 4h56. Os dados ainda estavam agarrados aos meus pensamentos, como a bagagem às minhas costas, me puxando para traz, para baixo, para longe, seja para antes, para casa, seja para depois, para a Suíça, intocada.
Chegamos até Saint-Yan. Só que Saint-Yan não estava no nosso caminho. Uma estradinha não sinalizada e perdida, e alguns quilômetros a mais no percurso. Tomamos a estrada que liga Saint-Yan à Poisson, e nos dissemos: "vamos almoçar em Poisson!" Mas não foi como quem traça um projeto que dissemos isso. Eu guardava ainda a estranha raiva de si mesmo de quando se comete um erro tolo. Parecia que Poisson era, finalmente, o destino final.
Quando chegamos lá, comemoramos. O lugar que escolhemos para cozinhar se mostrou pouco conveniente; na beira da estrada, na entrada do vilarejo. Os carros passavam jogando vento, poeira e olhares curiosos sobre nós. Cozinhamos uma massa volumosa e absolutamente necessária. Nossos corpos pediam nutrientes com avidez rara. Mastigar mal, engolir muito, o corpo sentado sem esmero na calçada, as costas dobradas, o pote de plástico se esvazinhando, o suor esfriando, os músculos se movendo sozinhos em espasmos eventuais, curtos, como se delirassem num sono profundo.

De Orage

Depois de mais de uma hora de densa apatia e siesta, empacotamos as coisas e tomamos a estrada para Charolles. O pedal da N1 voltou a travar, mas dessa vez eu sabia mais ou menos o que deveria ser feito; apertar a peça cilíndrica para que ela entre novamente na estrutura da bicicleta. Eu desconfiava que algo mais grave estava para acontecer com ela.
Mais alguns quilômetros, e o pedal travou mais uma vez. Tive a impressão de que dessa vez nós tínhamos rodado menos até o defeito se manifestar. A sensação de estar chegando perto de um fracasso aumentou quando eu tentei rodar a peça e ela simplesmente não se mexeu. Abordamos um fazendeiro num vilarejo cujo nome não me lembro, e pedimos água e, talvez, uma ferramenta. Mas que ferramenta? Eu nem sabia que ferramenta. Mostrei o problema, ele ouviu, olhou para o pedal, saiu sem dizer nada, em direção a um balcão. Voltou com um alicate regulável numa mão e uma lata de sprei na outra, e perguntou sorrindo:
- E essa panela aí?
Cecília riu e disse que era nela que cozinhávamos tudo, da entrada à sobremesa. Ele voltou a atenção para o defeito da N1, borrifou um lubrificante antioxidante na peça, e se pôs a apertá-la. Depois, borrifou ainda na corrente, na catraca, disse que eu deveria levá-la para um especialista o mais rápido possível e desejou boa viagem. Sempre sorrindo.
Seguimos, e vencemos um bom pedaço do caminho para Charolles antes de precisar apertar mais uma vez o pedal. Lubrificado, ele se deixou mexer. Mas eu sabia, com mais certeza, que aquilo era grave, e que de uma hora para outra estaríamos parados, empurrando a N1 a 6 k/h, se não encontrássemos um mecânico. Quando chegamos em Charolles, já fazia noite, e estávamos tão cansados que decidimos acordar tarde no dia seguinte, ficar por lá até que o comércio abrisse, procurar onde concertar a bicicleta sem pressa, descansar. Só que os pensamentos sobre as horas de descanso foram interrompidos por um dos mais curiosos episódios da viagem.
Atravessamos a cidade, tudo fechado; saímos por estrada qualquer, sem refletir sobre o caminho, já que no dia seguinte teríamos que voltar para reparar a N1, e procuramos um lugar para ficar. Não imaginávamos que aquela cidade nos ofereceria a mais fria recepção que já tínhamos experimentado.

De Orage

Saindo da cidade, encontramos mais uma casa ao lado de um pasto. Como na véspera a situação era parecida, estávamos confiantes. Tocamos a campanhia, e uma figura coberta de roupas de frio apareceu por uma porta inesperada, creio que a porta da garagem.
- Boa noite, senhora... senhor... Nós estamos viajando, a senhora poderia... o senhor...
Quando ela falou alguma coisa, já não lembro o que, eu percebi, finalmente, que se tratava de uma senhora. Mas já era tarde; ela parecia contrariada e fechada à conversa. Lógico.
Ainda assim, perguntei se poderíamos montar a barraca em algum lugar de sua propriedade, só para passar a noite, se ela não se importasse.
- Não me importo, não, mas isso me parece muito desconfortável; é muito úmido...
- Estamos bem equipados, senhora; não é a primeira vez que tentamos.
- Bom, tudo bem, mas talvez fosse melhor perguntar no vizinho de traz; ele tem mais espaço que eu...
Foi aí que percebemos que o vasto pasto ao lado não era a mesma propriedade que abordamos. A partir da sugestão dela, supomos que o pasto era do referido vizinho, e fomos bater na casa dele.
Depois que a senhora fechou a porta sobre si, Cecília riu de mim.
- Senhora... senhor... senhora...
Eu ri também, mas sobretudo da figura assexuada que não entendia como passaríamos uma noite de inverno numa barraca.
Tocamos na outra casa, e fomos atendidos por uma senhora. Certamente era uma senhora; percebemos imediatamente. Ela foi simpática. Não conversamos muito, mas ela disse que poderíamos ficar a vontade e nos instalar onde quiséssemos. Perguntamos onde ficava o acesso ao pasto, e descobrimos que nos enganamos de novo.
- Ah, não... O terreno aí ao lado não é nosso, não... Mas o quintal é grande; é só seguir até os fundos da casa.
Seguimos até o fundo e entendemos, finalmente, as proporções do terreno. Era grande, mas nada rural. Um quintal gramado, com três árvores, uma espécie de garagem, cheia de coisas que se usa ao longo das quatro estações, uma cerca viva em volta. Encostamos as bicicletas numa das árvores, e nos instalamos no quintal de alguém. Nada do que tínhamos planejado.
Antes do jantar, recebemos visitas. Dois homens com lanternas. O mais velho tinha a palavra.
- Minha esposa disse que permitiu que vocês dormissem aqui. Mas eu não permito. Eu não gosto da idéia de abrigar gente que eu não conheço. Você pode apresentar um documento de identidade?
Um frio na espinha superou de longe o que eu sentia na pele. Comecei a advogar pela nossa boa índole.
- Claro. O senhor não precisa se preocupar - Cecília saía da barraca - essa é minha esposa. Eu me chamo Bernardo de Sousa. Nós somos estudantes universitários em Clermont-Ferrant, e estamos de férias. Estamos a caminho da Suíça, onde somos esperados por amigos muito queridos.
Diante do pedido dos documentos, eu tinha entendido a grave preocupação que se passava pela cabeça daquele senhor. Ele tinha acabado de chegar em casa e descobrir que sua esposa estava abrigando no quintal dois forasteiros. Ele deve ter perguntado como éramos, se éramos ciganos, mendigos, e ela não soube responder. Sua família estava reunida para as festas de fim de ano. O homem que o acompanhava era seu filho, casado, cujos filhos esperavam lá dentro. Ele deve ter discutido severamente com a esposa sobre sua benevolência.
Cecília trouxe os passaportes, e, a partir de então, seu filho deixou o ar de guarda-costas para assumir um incômodo, talvez alguma vergonha, certamente pressa. Ele dizia "tá bom, vamos lá...", num tom de quem se enganara forte. Mas o senhor já tinha pedido os documentos, já os tinha lido, e agora os levava para dentro para fotocopiar. Isso mesmo. Ele foi fazer cópias dos nossos passaportes.
Entramos na barraca um pouco assustados. Conversamos sobre aquela antipatia. Concordamos que era aceitável, que não tínhamos nos apresentado direito diante da esposa dele. Ouvimos os passos dele voltando com os documentos. Eu saí, e o recebi com um sorriso. Dessa vez ele vinha sozinho, e não apontou a lanterna para meu rosto. Entregou os documentos dizendo que o Natal deles era naquela noite, porque o filho ia viajar a trabalho depois. Disse que não estava fazendo aquilo só para nos perturbar, e que hoje em dia é preciso desconfiar de todo mundo. Ele não chegou a pedir desculpas, mas tinha o tom bastante diferente. Perguntou se não precisávamos de mais nada, se tínhamos o que comer, se queríamos que ele esticassa um fio elétrico para nos dar mais luz... "Um fio elétrico?", pensei.
- Não, obrigado. É muito gentil, mas temos tudo que precisamos.
Assim, fomos dormir em paz.
De Orage

No dia seguinte, acordamos tarde, tomamos um bom café da manhã, desmontamos a barraca sem pressa, e fomos saindo devagar. Quando passávamos em frente a casa, nos dissemos que poderíamos deixar um bilhete agradecendo. Não, não. Não precisa.
Dentro da pequena cidade, seguindo as instruções de alguém, encontramos uma loja de motos, onde Cecília foi barrada por que seus tênis estavam sujos. Eu já tinha entrado e perguntado a moça se eles também trabalhavam com bicicletas. Saí sem muita esperança de resolver definitivamente o problema. Meus tênis também estavam sujos. Acho que foi isso que chamou o dono da loja para fora, impedindo Cecília de entrar também. Finalmente, eles nos emprestaram uma chave de boca, com a qual eu não poderia fazer muita coisa. Acabei resolvendo um outro problema, bem menos grave, da N1. Ela tinha pedais de corrida, que até então estavam me incomodando, porque não vão muito bem com meus tênis, que não foram feitos para bicicleta. Eu tinha comprado pedais ordinários na véspera da partida, ainda em Clermont-Ferrant, mas não tinha trocado ainda por falta de uma ferramenta apropriada. Aproveitei a oferta de uma ferramenta para trocar os pedais, e continuamos a viagem sob a sombra do insistente problema mecânico.
Apesar da noite bem dormida, estávamos nos sentindo ainda muito cansados, a o relevo parecia estar contra nós. Pedalamos devagar e com muitas pausas. Todas as subidas pareciam enormes, e as decidas passavam muito rápido.
Passamos por muitas cidades muito pequenas, onde as pessoas pareciam ter medo de gente. Numa delas, encontramos uma velhinha caduca, que nos olhava de boca aberta, através de sua janela, como se fôssemos alienígenas. Tentamos chamá-la para pedir água, mas ela só ficava olhando, e não respondia. Almoçamos na beira de um riachinho, onde lavamos os talheres, a panela, as duas xícaras, os potes de plástico, a sola dos tênis, tudo, pela primeira vez com água corrente. Ainda sem sabão.

De Orage

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Na ânsia de avançar, esperamos demais para comer. Creio que a principal causa da improdutividade do dia foi isso. Não sentíamos fome, mas também não tínhamos energia para ir muito longe. Passamos o dia com lanches insólitos, e esse almoço a beira do riacho foi feito depois das 4 da tarde. O Sol já estava baixo. Quando terminamos de comer, atravessamos a ponte em direção ao que supomos que seria uma fazenda humilde, onde poderíamos passar a noite, mas só encontramos galpões e tratores. Até que achamos um grupo de 4 ou 5 pessoas conversando perto de um carro, em frente a um desses galpões. Eles pareciam à trabalho. Perguntei, como de costume, se eles consentiam em nos emprestar um pedaço de chão por uma noite, e ouvi uma resposta muito estranha.
- Vá pedir ao prefeito.
- Ao prefeito?
- Isso. Você continua nessa estradinha, até chegar à vila, onde tem a prefeitura.
Meu humor não estava num dos seus melhores dias, e ainda uma dessas... Agradeci e tomei a direção contrária ao tal prefeito. Quando começamos a pedalar, ele gritou:
- É por ali!
- É, eu sei. Muito obrigado - respondi sem olhar. O prefeito? O que é que o prefeito tem a ver com isso?
Voltamos para a estrada principal a andamos os últimos minutos de luz, até uma floresta muito convidativa para mim, e muito assustadora para Cecília. Ela foi corajosa. Entramos empurrando as bicicletas por uns 100 metros, e montamos a barraca sem pedir nada a ninguém. Eu senti uma estranha satisfação com aquilo. Tínhamos passado a noite anterior num quintal, e agora eu me sentia na liberdade de estar cercado por árvores, longe do alcance da visão de quem quer que seja, onde a chance de sermos abordados por alguém era muito remota.

De Orage

Na oração, antes do jantar, pedimos perdão pelo mal-humor do dia. Depois de comer, eu abri meu saco-de-dormir (apenas o meu) e dormi sem refletir. Aqui está o que minha esposa escreveu enquanto eu dormia:
« Estamos agora numa floresta. Que selvagem! rs...
« Pedro dorme pesado, está exausto. Meu herói, o Super-Cabelinho (tinha sempre um pouco de cabelo saindo pelos cantos do gorro), é de carne e osso.
« Somos um casal cheio de planos. Já éramos indivíduos cheios de planos antes de nos conhecermos. Juntos, os planos se foram somando, se cruzando, sendo redesenhados, e se multiplicando. Somos uma verdadeira fábrica de fazer planos. Dos grandes, bonitos, de chamar atenção. Planejamos mestrado e doutorado no Canadá; sete filhos; cachorros; várias viagens; várias mudanças; para a China, para a Itália, para a Romênia... E há uns dois meses planejávamos essa viagem para a Suíça. Planejar é bom, mas é preciso efetuar o projeto. Muitas vezes, as coisas acontecem como planejado, como fazer um ano da faculdade na França. Outras vezes... não contamos com alguma coisa, ou não analisamos direito a situação. Ou ambos. Essa viagem deveria durar 4 dias. Estamos no fim do 4° dia, e na metade do caminho. É preciso saber lidar com mudanças de plano, após alguma frustração. Estamos aprendendo. »
***
Essa foi a maior lição que a tempestade (Orage) nos deu; nem sempre seremos capazes de ir até o fim. Nossos sonhos não tem limites, mas nossos corpos sim. Às vezes, é preciso saber desistir.

De Orage

Se gostou desse relato, não deixe de ler o dos outros dias! E na ordem ;)

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Primeiro e segundo dias

No primeiro dia as coisas não se passaram muito bem. Depois de deixar o pequeno apartamento de 9m2 em direção à França inteira e bela, nos perdemos antes dos 10 primeiros quilômetros. As pernas já pediam férias, e não tínhamos vencido nem 5% do percurso. Mas nossa determinação estava inabalável.
Nossos veículos merecem um destaque especial. Cecília pilota Rippley, forte, elegante e imortal.
De Orage
Eu viajei na N1, uma joia raríssima do tempo da República. Desenho arrojado, versatilidade, e uma herança clara da Coroa de Naboo: a cor. É bela, mas não é o veículo mais apropriado para uma viagem desse tamanho. Ela foi desenhada para pequenas missões de caça, em torno de Naboo, que exigem alto poder de fogo e agilidade. Entretanto, minha unidade é uma das poucas que tinha sido adaptada para escoltar o cruzador real Nubian em missões diplomáticas.
De Orage
Não sabemos se foi tal adaptação duvidosa, ou simplesmente sua idade, mas ela se mostrou delicada num momento crítico.
Tínhamos acabado de reencontrar o caminho quando os pedais da N1 travaram. Eu não tinha nem idéia do que estava acontecendo. Estávamos na entrada de Gerzat, cidade pequena onde não havia mecânico de bicicleta. Encontramos um mecânico de carro, que não pôde oferecer mais do que dizer que em Gerzat, de fato, não há mecânico de bicicleta. Ouvimos isso 6 vezes, de 6 pessoas diferentes. Perguntamos várias vezes; era difícil acreditar.
Quando eu mesmo (Bernardo) tentei resolver o problema, sofri. Não com o desmontar enfadonho e sujo de graxa, mas com o enígma. Não havia mais parafuso ou porca a ser retirado, e eu não entendia o que estava errado. Quando ela parecia ter voltado ao estado normal, o primeiro teste a travava de novo. Até que eu, por acaso, rodei a peça certa, com a mão mesmo, para o lado que parecia errado mesmo, e o pedal se soltou. Pneus na estrada. Percorremos mais um pouco, sacrificada uma das 5 refeições previstas, e chegamos a um "posto piquenique". Algo muito estranho. No meio do nada, na beira da estrada, uma mesa com bancos, tudo de madeira, com entrada para carro.
De Orage

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Paramos exatamente na quilometragem que tínhamos previsto para a pausa. As costas doíam. Estávamos muito felizes. O lugar era muito bonito.
Montamos o acampamento numa fazenda, entre duas plantações separadas por uma valeta, por onde corria água visivelmente não potável.
Durante a noite, Cecília acordou com frio. Acionamos os dois pacotes de acetato de sódio, que produzem calor, e os colocamos dentro dos sacos de dormir, para aquecer os pés. Algumas horas depois, eu acordei com frio nas costas e a impressão de que o pacote de acetato de sódio não estava funcionando. Teoricamente, ele deveria funcionar por 6 horas. Depois de refletir um pouco, percebi que havia uma corrente de ar que entrava por baixo da lona externa. Eu deveria ter fincado as estacas até que a lona tocasse o chão; era a primeira vez que eu montava aquela barraca. Não ousei sair para corrigir nada. Logo seria dia. Virei o corpo para que o zíper do saco de dormir ficasse para cima, e a corrente de ar frio deixou de tocar minhas costas.
Na manhã do dia seguinte, levei tempo demais para desmontar a barraca; perdemos os primeiro 40 minutos de luz de dia, antes de começar a pedalar. O frio da manhã era úmido e o nosso humor, frágil.
A manhã não foi muito produtiva. Viajamos abaixo da velocidade média pretendida. O stresse nos impedia de observar as belas paisagens.
De Orage

Depois de Randan, atravessamos uma floresta precedida por placas de advertência que anunciavam a possibilidade de travessia de cervos. Ficamos atentos ao bosque, mas somente Cecília pôde ver um dos animais pulando até a metade da estrada e em seguida voltando.
Chegamos à Vichy, onde um senhor muito simpático conversou conosco, nos instruiu sobre como deixar o labirinto da cidade o mais rápido e prático possível, e nos recomendou voltar no verão ou na primavera, quando as árvores estão floridas. De fato, o dia não estava muito bonito.
De Orage

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A conversa com o simpático senhor e a sensação de estar se mexendo mais nos revigorou, e continuamos pedalando, mas não fomos muito longe. No fim do 2° dia de viagem, chegamos à Lapalisse. Isso significava nada mais do que 76 quilômetros percorridos. Segundo o projeto inicial, já deveríamos estar na metade do caminho, isto é, 200 quilômetros.
Eu entrei numa padaria para pedir água enquanto Cecília ficou com as bicicletas e as mochilas, na calçada diante do majestoso e quadrado Castelo de Lapalisse.
De Orage
A placa agourenta diz "você não tem a prioridade".
Pedalamos mais um pouco para sair da cidade, tentando não pensar nos números modestos que apontavam, talvez, para uma longa viagem de 15 dias, e procuramos um lugar para montar acampamento, antes que fosse noite.
Encontramos uma pasto enorme com pequenas árvores no meio e uma casinha ao lado. Tocamos o sino da casa, e fomos atendidos por um homem de expressão curiosa. Contamos um pedaço da nossa história e pedimos sua permissão para montar a barraca em algum lugar do seu pasto que não lhe fosse inconveniente.
- No fim desse muro, tem um portão com uma corrente. Desenrole a corrente e podem entrar.
Agradecemos, entramos, atravessamos o pasto até as árvores e nos instalamos. A noite foi tranqüila.

* * *

Leia aqui o relato do terceiro e quarto dias.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Orage 1



No dia que Cecília se livrou da imobilização, ela perguntou ao médico se podia praticar esporte, e ele respondeu que bicicleta podia. Então resolvemos passear.
No primeiro dia, nos perdemos.



Mas c'est pas grave...

Estávamos em dúvida sobre quem levar conosco, D'Ávila Pompéia ou Maquiavel. Não daria pra levar os dois, porque eles brigam o tempo todo. Dissemos a Maquiavel que se ele deixasse de beber ele iria com a gente. Mas na manhã do dia 20, ele acordou dobrado... Então quem veio foi D'Ávila Pompéia fortão, pendurado na mochila de Cecília.


Almoçamos meio perdidos, perto de um cemitério. Reencontramos o caminho depois de conversar um pouco com um português bem simpático. Ele nos deu água e algumas palavras em português. À tarde, encontramos uma mesa no meio do nada, na beira da estrada. paramos para descançar. Depois do campo que se vê nas fotos, passava uma linha de trem. Quando o trem passou, demos xauzinho. :P



Quando o Sol se pôs, não dava mais para avançar, e muito menos para voltar. Montamos a barraca e preparamos uma refeição bem calórica, com macarrão, purê, azeite, biscoitos e nutela, para enfrentar o frio da noite.



Estávamos muito cansados. Mas era só o começo...

Leia aqui sobre o primeiro e o segundo dias.

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