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domingo, 16 de novembro de 2008

Você sabe o que vai acontecer na póxima meia hora?

De Clermont-Ferrand


Cecília aproveita com cuidado e carinho, cheia de uma satisfação irradiante, o caça espacial que nos é tão querido. Ela vai trabalhar na hora do almoço, pedala 15 minutos de ida, 15 de volta, prende o veículo numa barra de ferro, ao lado de umas 5 bicicletas velhas, e sobe para encontrar o marido. Bernardo a espera com o almoço a caminho, cheirando à pronto. Algumas horas de conversa, projetos, detalhes, e la se vai a moça, mais uma vez, ao trabalho oleoso e pesado do Apero'Max. A despedida planta saudade em Bernardo. Então, prevendo o incômodo, ele decide levá-la. Dois numa bicicleta, em Clermont-Ferrand, devem ser brasileiros.

No elevador, no pátio, na recepção, sorrisos e uma sensação de benção comum bem aproveitada. No estacionamento, o cadeado violado.

Cecília repete que foi ali mesmo que ela tinha prendido a bicicleta. - Nossa bicicleta... - ela repetia com um tom perdido, de desespero e revolta. Bernardo controla um ódio nascente destruidor, que só viria piorar as coisas, e diz com tranqüilidade que está tudo bem. Vamos andando. Caminhamos meia hora, sob a sombra da sensação de perda, com a memória fresca; eram 15 minutos de bicicleta. A conversa demorou algumas esquinas para começar a acontecer. Uma angústia de quem não sabe o que pensar, um silêncio solene, como se alguém tivesse morrido.

Mas ninguém tinha morrido. Era preciso orar pelo ladrão. Orar pelo ladrão? Que coisa...

Depois de chegar em casa, Bernardo olha o cadeado inútil, o quarto vazio, e simplesmente não o suporta. Sai para perambular em volta do prédio, olhando a rua, as pessoas que passam, as bicicletas que não foram roubadas. Todo mundo era suspeito agora. Vai buscar Cecília no trabalho com antecedência. Fica à 6° C durante uma hora esperando, ouvindo as perguntas bobas de A.J. no telefone, como se conversasse com ele.

De volta para casa, oram para que Deus alcance o coração perdido do ladrão. Divagam sobre ele. Seria um profissional, ganhando a vida com isso? Seria um adolescente delinqüente? Conversamos sobre o futuro. Sobre a segunda bicicleta, que seria, então, a primeira.

Pedro Bernardo escreve para Pierre Bernard:

- Bernard, roubaram minha bicicleta. Você acha que eu devo ir a polícia? Será que eu tenho alguma chance de recuperá-la?
- Isso, vá à polícia, atrás do Centre Jaude, fazer o B.O. Estava no seguro? Eu sinto muito.

Não estava no seguro. Não esperavam isso da França, depois de culpar o Brasil em silêncio por toda a violência do mundo. São declarações preconceituosas do coração, que a cabeça recusa afirmar. E assim, os preconceitos vão se quebrando. É o mundo que é violento.

Assim, o sol se põe na terça-feira 11 de novembro.

No dia seguinte, Bernardo acorda cedo, se diz que hoje é um grande dia e vai à delegacia. Está antes das oito diante da porta que se abre às nove. O delegado é muito simpático, mas não faz mais que seu trabalho. Bicicleta roubada, horário, quem constatou o roubo, etc. O caça espacial se transforma em simples bicicleta roubada.

Depois, Bernardo entrevista franceses na rua, sobre como eles aprendem inglês, há quanto tempo, tudo no intuito de oferecer aulas particulares a domicílio. Alguns são bem simpáticos, outros frios como o inverno deles, e uns poucos interessados. A primeira aula demonstrativa marcada e eis que é de fato um grande dia. As enquetes dão mais frutos que os cartazes. Quando ele chega em casa, Cecília sabe sorrir. O grande dia se desenha mais dentro deles do que fora, mas eles sabem disso e acham bom. Deus também. Pai carinhoso, prepara as bênçãos do caminho, depois da tempestade.

Sexta-feira, Bernard convida Bernardo para fazer compras. Xin, um aluno de inglês, vai com eles. Boa companhia, conversas diversas no supermercado, entre as quais, a bicicleta roubada. - Como era ela? Foi muito cara? Era parecida com essa aqui? - Na entrada, o supermercado ostentava uma mountain bike prateada por 150 pontos do carnê de fidelidade. - Mais ou menos. Era mais alta, mais leve, mas não tinha amortecedor traseiro.

Depois das compras, saindo do supermercado, o coração gigante de um homem às vezes ilegível oferece, sem perguntar:

- Eu compro essa bicicleta para você.

Bernardo se contradiz, dizendo que não tem palavras.

A caminho de casa, empurrando a bicicleta de pneus murchos, ainda atônito, ele lembra que era naquela sexta que eles comprariam a segunda bicicleta, que se transformou na primeira, e que acabara de se retransformar na segunda. Ele liga para Cecília e pede que ela venha em seu encontro. Então, ela experimenta a mesma surpresa que Bernardo tinha acabado de viver. Dias mais tarde, o veículo será batizado: Slave I.

- Vamos às compras!

Bomba de ar, luvas, coletes amarelos de sinalização, um cadeado mais grosso e, finalmente, Rippley, a segunda bicicleta.

Fazendo os primeiros testes com Rippley e Slave I, Cecília encosta a mão, que estava firme no guidom, numa barra de ferro entre a calçada e a rua. Não parece grave, mas uma dor incômoda leva ao hospital, onde eles descobrem que um osso da mão direita está quebrado. Pelo menos, ela é canhota. É preciso ver o lado bom das coisas...

- O quê?! Eu quebrei um osso? Eu nunca tinha quebrado um osso!

De Cecília

De Cecília


No sábado, entram sorrindo no elevador, contando as provações versus as bênçãos, apertam o 6, a porta se fecha, a conversa rola uns momentos, e eles percebem que o elevador não se mexe.

- Pelo menos ainda tem luz. - O lado bom...

O técnico leva uns 30 minutos para chegar. Conversamos com tranqüilidade no nosso metro quadrado, mas a senhora do lado de fora não estava nada tranqüila.

- Fiquem calmos, fiquem calmos!

Ela devia estar do lado ruim...

No dia seguinte, domingo na igreja, eles ganham um hinário novinho com 349 belas músicas, para louvar o Senhor, que está no controle de tudo, em francês.

- É isso que vamos fazer. Haja o que houver.

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