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terça-feira, 25 de novembro de 2008

Neve!

Após uma longa e relaxante noite de sono, Cecília abriu a cortina da sua grande janela, que se debruça curiosa sobre a cidade de Clermont. Uma surpresa se revelava: estava nevando! Cecília ficou histérica e não parava de repetir:

- Tá nevando! Tá nevando! Vem ver, Pedro!!

Bernardo, ainda sonolento, levantou-se, aproximou-se e ficou em silêncio contemplando. "Quando neva fica um grande silêncio", alguém disse. Isso porque não havia Cecília nem uma cafeteira do tempo de vovó por perto...

Um momento lindo. "A cidade parecia feita de giz"* Sentimos a agradável sensação de ver mais uma faceta da obra de Deus de perto. Há quem passe a vida à espera de um grande milagre e muitos se decepcionam com Deus por não presenciar tal momento. A verdade é que o Sennhor nos colocou ao alcance da vista um verdadeiro ciclo de milagres. Cada lei física que rege esse mundo que conhecemos é um legítimo milagre do Criador. Nós nos habituamos a viver rodeados por eles, por isso a dificuldade em reconhecê-los como tal. Não é preciso ir muito longe pra ver agir a mão poderosa do nosso grande Pai.

Fiquem com Deus e não se esqueçam de olhar o céu.




O barulho estranho é a cafeteira.


* Da crônica "A arte de ser feliz", de Cecília Meireles

domingo, 16 de novembro de 2008

Você sabe o que vai acontecer na póxima meia hora?

De Clermont-Ferrand


Cecília aproveita com cuidado e carinho, cheia de uma satisfação irradiante, o caça espacial que nos é tão querido. Ela vai trabalhar na hora do almoço, pedala 15 minutos de ida, 15 de volta, prende o veículo numa barra de ferro, ao lado de umas 5 bicicletas velhas, e sobe para encontrar o marido. Bernardo a espera com o almoço a caminho, cheirando à pronto. Algumas horas de conversa, projetos, detalhes, e la se vai a moça, mais uma vez, ao trabalho oleoso e pesado do Apero'Max. A despedida planta saudade em Bernardo. Então, prevendo o incômodo, ele decide levá-la. Dois numa bicicleta, em Clermont-Ferrand, devem ser brasileiros.

No elevador, no pátio, na recepção, sorrisos e uma sensação de benção comum bem aproveitada. No estacionamento, o cadeado violado.

Cecília repete que foi ali mesmo que ela tinha prendido a bicicleta. - Nossa bicicleta... - ela repetia com um tom perdido, de desespero e revolta. Bernardo controla um ódio nascente destruidor, que só viria piorar as coisas, e diz com tranqüilidade que está tudo bem. Vamos andando. Caminhamos meia hora, sob a sombra da sensação de perda, com a memória fresca; eram 15 minutos de bicicleta. A conversa demorou algumas esquinas para começar a acontecer. Uma angústia de quem não sabe o que pensar, um silêncio solene, como se alguém tivesse morrido.

Mas ninguém tinha morrido. Era preciso orar pelo ladrão. Orar pelo ladrão? Que coisa...

Depois de chegar em casa, Bernardo olha o cadeado inútil, o quarto vazio, e simplesmente não o suporta. Sai para perambular em volta do prédio, olhando a rua, as pessoas que passam, as bicicletas que não foram roubadas. Todo mundo era suspeito agora. Vai buscar Cecília no trabalho com antecedência. Fica à 6° C durante uma hora esperando, ouvindo as perguntas bobas de A.J. no telefone, como se conversasse com ele.

De volta para casa, oram para que Deus alcance o coração perdido do ladrão. Divagam sobre ele. Seria um profissional, ganhando a vida com isso? Seria um adolescente delinqüente? Conversamos sobre o futuro. Sobre a segunda bicicleta, que seria, então, a primeira.

Pedro Bernardo escreve para Pierre Bernard:

- Bernard, roubaram minha bicicleta. Você acha que eu devo ir a polícia? Será que eu tenho alguma chance de recuperá-la?
- Isso, vá à polícia, atrás do Centre Jaude, fazer o B.O. Estava no seguro? Eu sinto muito.

Não estava no seguro. Não esperavam isso da França, depois de culpar o Brasil em silêncio por toda a violência do mundo. São declarações preconceituosas do coração, que a cabeça recusa afirmar. E assim, os preconceitos vão se quebrando. É o mundo que é violento.

Assim, o sol se põe na terça-feira 11 de novembro.

No dia seguinte, Bernardo acorda cedo, se diz que hoje é um grande dia e vai à delegacia. Está antes das oito diante da porta que se abre às nove. O delegado é muito simpático, mas não faz mais que seu trabalho. Bicicleta roubada, horário, quem constatou o roubo, etc. O caça espacial se transforma em simples bicicleta roubada.

Depois, Bernardo entrevista franceses na rua, sobre como eles aprendem inglês, há quanto tempo, tudo no intuito de oferecer aulas particulares a domicílio. Alguns são bem simpáticos, outros frios como o inverno deles, e uns poucos interessados. A primeira aula demonstrativa marcada e eis que é de fato um grande dia. As enquetes dão mais frutos que os cartazes. Quando ele chega em casa, Cecília sabe sorrir. O grande dia se desenha mais dentro deles do que fora, mas eles sabem disso e acham bom. Deus também. Pai carinhoso, prepara as bênçãos do caminho, depois da tempestade.

Sexta-feira, Bernard convida Bernardo para fazer compras. Xin, um aluno de inglês, vai com eles. Boa companhia, conversas diversas no supermercado, entre as quais, a bicicleta roubada. - Como era ela? Foi muito cara? Era parecida com essa aqui? - Na entrada, o supermercado ostentava uma mountain bike prateada por 150 pontos do carnê de fidelidade. - Mais ou menos. Era mais alta, mais leve, mas não tinha amortecedor traseiro.

Depois das compras, saindo do supermercado, o coração gigante de um homem às vezes ilegível oferece, sem perguntar:

- Eu compro essa bicicleta para você.

Bernardo se contradiz, dizendo que não tem palavras.

A caminho de casa, empurrando a bicicleta de pneus murchos, ainda atônito, ele lembra que era naquela sexta que eles comprariam a segunda bicicleta, que se transformou na primeira, e que acabara de se retransformar na segunda. Ele liga para Cecília e pede que ela venha em seu encontro. Então, ela experimenta a mesma surpresa que Bernardo tinha acabado de viver. Dias mais tarde, o veículo será batizado: Slave I.

- Vamos às compras!

Bomba de ar, luvas, coletes amarelos de sinalização, um cadeado mais grosso e, finalmente, Rippley, a segunda bicicleta.

Fazendo os primeiros testes com Rippley e Slave I, Cecília encosta a mão, que estava firme no guidom, numa barra de ferro entre a calçada e a rua. Não parece grave, mas uma dor incômoda leva ao hospital, onde eles descobrem que um osso da mão direita está quebrado. Pelo menos, ela é canhota. É preciso ver o lado bom das coisas...

- O quê?! Eu quebrei um osso? Eu nunca tinha quebrado um osso!

De Cecília

De Cecília


No sábado, entram sorrindo no elevador, contando as provações versus as bênçãos, apertam o 6, a porta se fecha, a conversa rola uns momentos, e eles percebem que o elevador não se mexe.

- Pelo menos ainda tem luz. - O lado bom...

O técnico leva uns 30 minutos para chegar. Conversamos com tranqüilidade no nosso metro quadrado, mas a senhora do lado de fora não estava nada tranqüila.

- Fiquem calmos, fiquem calmos!

Ela devia estar do lado ruim...

No dia seguinte, domingo na igreja, eles ganham um hinário novinho com 349 belas músicas, para louvar o Senhor, que está no controle de tudo, em francês.

- É isso que vamos fazer. Haja o que houver.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Eu não casaria com Rebeca


Ouvi falar certa vez de uma teoria que defendia que a sua melhor amiga seria seu par ideal se fosse homem. Sua melhor amiga é uma pessoa altamente confiável, ela te ouve e muitas vezes te entende antes mesmo de você abrir a boca. Vocês sempre se divertem juntas, riem bastante e têm vários pontos em comum.

É verdade que Rebeca é minha melhor amiga. É bem verdade também que ela é altamente confiável, me entende e me faz rir. Mas fica faltando o quesito « pontos em comum », que são escassos... Em sua última carta pra mim, ela disse que a gente só pôde ser amiga quando aprendeu a conviver com as diferenças. E ela estava certa; ela bem que costuma ter razão.

Ela é fria e calma; eu sou passional e estressadinha.

Ela fala baixo, manso e pouco; eu posso ser uma matraca.

Ela não gosta de criança (apesar de amar seus sobrinhos); eu vou ter sete filhos.

Ela é de uma praticidade invejável; eu sou enrolada...


Ela não se preocupa com besteira... nem com coisa importante; eu sou muito ansiosa.

Se ela quer, faz

Se não pode, esquece

Se não falar, ela não responde

Se ela não gostar, ignora

Ô, praticidade...!


E se ela amar... estará sempre presente, como boa amiga que tem sido todos esses anos. É uma honra conhecê-la, pois isso não é pra todos. É pra mim, por algum agradável mistério da vida.

Eu estava lá quando ela se apaixonou pela primeira vez. Eu a vi cair na quadra da escola, jogando futebol. Eu ri com ela, e fiz xixi nas calças, na frente da turma por causa de uma besteira de Marcus (só a gente mesmo...). No meu primeiro show de forró, lá estava ela. Eu a vi no seu primeiro emprego na McDonald's. Eu fiz leite pra ela uma noite em que ela passou mal após uma festa na escola (lembra dessa, Beca?). A gente fez a prova pro CEFET na mesma sala e depois foi comer galeto com Mari, meus pais e Cássia. Ela percebeu o clima entre Pedro e eu antes mesmo de mim e acompanhou de pertinho o início do nosso relacionamento.

E depois foi testemunha no nosso casamento.

Ela já faz parte da família.

Nos meus últimos momentos em Recife, ela não poderia faltar. E num dos raros momentos em que ela chorou, eu estava lá; eu vi; e fui até a culpada!

Que saudade do tempo em que eu ia toda semana pra sua casa e comia todos os doces; em que nunca vinha carro quando a gente ia atravessar a rua; em que a gente jogava perfil e eu sempre perdia porque você já conhecia o jogo; em que a gente conversava até de madrugada e eu pegava no sono deixando você falar sozinha; em que você dizia que ia lá em casa e ligava de última hora dizendo que tava com preguiça (sua fuleira!).

Não diria que conheço tudo dessa garota, aqueles olhos serenos escondem seus mistérios. Mas a conheço o bastante pra imaginar sua reação diante desse texto. Eu até posso vê-la dando uma gargalhada ao terminar de ler e completar com sua voz preguiçosa sobre o título:

- Que bom que você não casaria comigo, amiga; primeiro porque você é uma mulher muito bem casada, e segundo porque eu sou hétero.

Sempre pragmática essa moça...


domingo, 9 de novembro de 2008

Tie Fighter

Depois de um sábado de sol em Clermont-Ferrand, algumas tomadas bem legais com o nosso caça espacial. Quadro de alumínio, câmbio Shimano 21 velocidades, apenas 13 kg. Nada como uma X-Wing, mas é a melhor bicicleta que já tivemos.

sábado, 8 de novembro de 2008

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Teóloga

Milena se superou!

Acabei de ler os textos mais recentes que ela publicou no seu blog, e parece que a moça cresceu mesmo. Ela já dava sinais disso quando tinha passado um ano sozinha em Recife, sob a enxurrada de livros complexos, muitas vezes hereges, sobre Deus. Especulações, divagações, suposições, negações e a piedade solene de um Deus paciente, que abençoa.

Quando estava para se formar, as crises teológicas se somaram à sementes de feridas mais pessoais, se é que o amor desperdiçado é mais pessoal do que a impressão de que, entre invisível e real, Deus prefere sempre ser o invisível.

A falta de fé afasta o homem de Deus muito mais do que a pouca ciência. Mas ela cresceu.

Hoje, eu li com orgulho alguns versos do meu sangue.

Parabéns, Milena.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Oração

Hoje, estamos inaugurando nossa lista de oração, que vai ficar por tempo indeterminado aí ao lado, para os irmãos que quiserem saber nossos motivos de oração mais específicos. Também estamos atentos aos motivos de oração das nossas famílias e amigos.

Quando eu morava em Sorocaba, estava sob o olhar atento de meus pais. Eles oravam bastante por mim.

Hoje, eu não estou mais sob o olhar atento deles, mas eles ainda oram por mim. Além disso, eles ganharam mais um nome para orar, e isso é bom. Eles oram por Cecília também.

Foi ainda sob o olhar deles que eu aprendi a importância da oração. Jether, tendo sido mecânico, explicou uma vez que a oração é como o combustível do crente, que carro nenhum anda sem gasolina, etc. Foi sob o olhar deles que eu chorei o pecado certo e a fé frouxa da adolescência, depois da juventude. Foi sob esse olhar que eu me ajoelhei admitindo que estava perdido, que era tudo orgulho, que eu ia orar.

Eu orei, mas não o bastante. O rumo certo custou a chegar. Quando chegou, no deserto inóspito, no abandono, eu me virei para dentro de mim mesmo e gritei que meu coração é de Deus. Fez eco.

Depois, me voltei para os outros e sussurrei que meu coração é de Deus de novo. Não fez eco, mas todo mundo estava escutando. Então, me voltei para Cecília e prometi, on-line, que iria orar por ela todos os dias dali em diante. Essa era a ordem matrimonial de Deus. "Ore por ela".

Hoje, nós oramos pelo menos 3 vezes ao dia. Lembramos de muita gente. Cada oração é uma pedra na construção de um castelo. Acabamos de começar. Vai levar anos, décadas, mas será um castelo sólido, cuja matéria prima é vinda das mãos de Deus, em cada resposta de oração. São as mesmas mãos de artista oleiro, que faz com carinho seres humanos de barro, frágeis, quebradiços. Mas nada impede que vasos de argila morem em castelos de pedra.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Cecília indo pra batalha

Aqui vai um pequeno vídeo (meio sem pé nem cabeça) em homenagem à mulher que sustenta essa casa.



Bernardo fica cozinhando, lavando louça, lavando roupa...
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