Não deixe de olhar para a Lua

Eu estava me preparando para sair da casa de Cecília, céu de fim de tarde já escuro, preparando a moto, quando a Lua lhe chamou a atenção. Eu estava sob um telhado, que me cobria o pensamento de pressa. Os quadros que o céu pinta geralmente eliminam minha pressa. Mas eu estava seguro embaixo daquelas telhas de alumínio.
Cecília se afastou de mim, na direção do céu aberto, enquanto dizia:

- Olha a Lua!

Lembrei de como a Lua fica bela quando vai enchendo. Deixei a moto e ganhei alguns segundos a mais ao lado de minha noiva, olhando para o céu.

Depois, indo para casa, numa rua chamada Jangadeiro, várias motos me ultrapassaram, com pressa. Não sei qual delas vi cair, com estrondo, a poucos trinta ou quarenta metros à minha frente. Diminuí imediatamente, e acompanhei os gritos enfurecidos de um avó cujo neto jazia deitado no asfalto, diante da moto amassada.

Ele queria vingança mais do que socorro. A criança não dizia nada.

Parei, olhei, pensei, continuei ouvindo os gritos. Quase que podia ouvir também os mls a mais de adrenalina sendo lançados no meu sangue a cada momento. Era grave? Havia sangue? Resolvi telefonar. Um, nove, zero, e assim que comecei a falar, percebi quanta adrenalina já dançava alvoroçada na minha corrente sangüínea; era um falar truncado, com muitas repetições e nenhuma pausa. Pouca informação e muito volume. Falava tão alto que o som devia estar distorcido; a moça do outro lado não entendia muito. Depois de muita briga, entendeu o bastante, e disse que os bombeiros ligariam para mim, que eu mantivesse a linha desocupada.

Agradeci, desliguei e pensei:

- Eu não disse meu número. Serviço eficiente; sem perguntas inúteis, identificação de chamada, rua Jangadeiro, é isso mesmo... Todo mundo está ligando!

Todo mundo estava ligando. Havia dezenas de pessoas em volta do acidente, e todos estavam com um telefone colado à orelha. Nesse ponto, me senti inútil.

O congestionamento começou a se desfazer, depois que desistiram de esperar a ambulância e retiraram o que sobrou do menino e da moto do meio da rua. Vi de longe que o garoto estava vivo e consciente. Devia ter seus 7 anos. Continuei preocupado, mas a partir daí, mais comigo. O condutor da moto afirmava inocência, que o moleque se desprendeu do avó para atravessar com pressa de criança a rua, que "o velho queria me agredir..." e o transito parou por completo. Fiquei a pensar na ambulância, que não tinha livres senão vias aéreas para chegar. Só de helicóptero. Todos querem olhar. Ninguém lembra que quem pode ajudar costuma chegar pela rua, e precisa de passagem.

Mas é verdade que o transito foi fluindo, devagar, todos olhando enquanto passavam, e eu decidi que não havia nada que eu poderia fazer para ajudar ali.

Quis ir para casa.

No caminho, andando mais devagar do que costumo, lembrei da Lua, que Cecília aprecia tanto, que devia estar olhando para mim naquele momento. Eu não posso olhar enquanto piloto, mas estava pensando nela. Calculando o acidente, pensei que poderia ter sido comigo. O arranhão no braço daquele rapaz poderia latejar no meu. Os brados daquele senhor poderiam ser na minha direção. O medo e a dor daquela criança poderiam ser culpa minha. Culpa que eu dividiria com prazer com aquele avó.

Bastava que eu tivesse saído quinze ou vinte segundos mais cedo. Bastava que eu não tivesse olhado a Lua.
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